segunda-feira, 31 de agosto de 2009

Relato Farrapos 1000 km- Luiz Faccin

O brevet 1000 km iniciou em julho de 2008 quando pedalava o brevet 400 km de Curitiba. O David Dewaelle me falou que poderíamos conseguir a medalha de Randonneur 5000 pois havíamos concluído o Paris Brest Paris 2007. Para isto precisávamos para isto também o brevet 1000 km.
Em outubro de 2008 fiz viagem de mais de 500 km de carro para vistoriar estradas e definir o percurso do brevet 1000 km.
Em janeiro de 2009, eu e o Udo, fomos a Canguçu ver o percurso recém inaugurado da RS-471.
Para pedalar o brevet 1000 km eu tinha um grande trabalho extra, organizar os brevets de 400, 600 e o próprio brevet 1000 km. A organização dos brevets roubou o meu tempo livre e treinei menos do que pretendia. Fiz uma boa base em 2009, pedalando 6 brevets de 200 km, 3 brevets de 300 km e ainda uma Fleche Velócio de 385 km.
O brevet de 400 pedalei adiantado uma semana antes do brevet original, poren em dia bem mais frio.
O brevet de 600 também pedalei em outra data e também com muito frio e para dificultar estava com uma virose que me deixou muito debilitado.
Dia 29
Sem muito sucesso eu tentei dormir até mais tarde na manhã deste dia e também tentei descansar após o almoço. Após a reunião técnica na noite deste dia eu ainda tinha muito o que fazer, mas precisava jantar. Eu, o Miguel e a Sandra fomos no restaurante Centenário, por lá estavam vários outros ciclistas de saída para o hotel para tentar algumas horas de descanso.
Depois da janta fui para casa. O material do brevet estava quase todo pronto,mas eu precisava tomar banho e organizar as minhas coisas para a pedalada. Muita coisa eu havia deixado no quarto do hotel, mas o material da bicicleta estava todo por conferir. Fui deitar apenas às 23:30 para tentar dormir até às 2:30. Estava preocupado com a organização do brevet e cheio de detalhes na cabeça. Provavelmente cochilei umas 2 vezes por alguns minutos, mas estava muito longe de descansar o que precisava. Às 2:30h levantei, vesti a roupa para pedalar, comi alguma coisa, coloquei a bike no carro, me despedi da esposa e fui para o hotel.
No hotel fui rápido, larguei as coisas, montei a bike, entreguei o material para o Miguel e coloquei o equipamento. Agora c’est comme as, que seja como tem que ser. Que Deus nos proteja e que ninguém se machuque gravemente no primeiro brevet 1000 km do Brasil.
Na hora da largada eu sai do hotel para a rua e estava bastante frio ( 2 graus). Eu estava bem protegido e usava: meias Assos Winter, cobre botas impermeável Thermo, calça de lycra, bermuda Assos, blusa Solo X-thermo, jaqueta inverno impermeável forrada Sport Full, touca solo embaixo do capacete, luva de plástico e luva forrada impermeável, alem de óculos, sapatilha, protetor solar, creme contra assaduras, protetor labial,... No alforje eu estava levando alguns itens para se o frio apertasse ainda mais, calça impermeável e mais um corta vento Wind Stopper Scott Gore. Na rua senti que mesmo com esta roupa eu sentia frio nos braços e peito. Abri o alforje e vesti também o corta vento Scott.
A largada foi realizada no posto de combustível ao lado do hotel para evitar barulho aos demais hospedes. Largada 3:30h em uma quinta feira gelada. Largamos sem muita afobação. No Distrito Industrial começou a se formar o pelotão da frente com mais de 10 ciclistas onde eu também estava. Andávamos a mais de 25 km/h, mas não muito mais do que 30 km/h, um ritmo bom. O frio depois de esquentar estava suportável. Em Rio Pardo o Rubens Gandolfi deixou cair a garrafa e eu aproveitei a oportunidade para urinar. O pelotão seguiu. Muito perigo em cima da ponte sobre o Rio Jacui ( 700 m) com movimento de veículos mesmo antes das 5h. No morro da antena, antes da fonte, alcancei o pelotão novamente. O Rubens ficou com mais alguém e o pelotão estava com uns 7 ciclistas. Em Pantano Grande entremos no freezer, estava muito úmido e o frio deixou o rosto dolorido, o verdadeiro frio de doer. Resolvemos não parar no PA- ( Ponto de Apoio) da Raabelândia e, para ganhar tempo, seguimos no asfalto novo, percurso mais longo. O termômetro que estava com o Miguel marcou zero grau. Depois de Pantano chegamos no trevo de acesso a cidade e avistamos dois ciclistas mais a frente. Era a dupla Zézo e Maico de Urussanga, SC. O Pexe aumentou o ritmo e foi atrás da dupla, deixando os demais. O pelotão estava mais disperso e realizamos um parada rápida. O Isac se enroscou com o Vitor e caiu o suporte de guidão da bike soltou e perdemos algum tempo ali. O pelotão se separou, pois com aquele frio não era possível ficar parado.
O dia foi clareando e chegamos no PA de Encruzilhada. Hora de comer para enfrentar os próximos 110 km. Massa, arroz e molho, mas e que molho, como disse o Claiton, molho de graxaim. Comer por necessidade e não por vontade. Não demoramos muito e seguimos. Os companheiro de pedalada e conversa foram trocando. Ao lado de Encruzilhada do Sul, nos locais mais altos do percurso, quando o sol já brilhava anunciando um bonito dia, começamos a avistar a geada. Uma geada realmente forte que congelou até as folhas mais altas e as pedras. Podíamos avistar algumas arvores isoladas no campo. O sol derreteu o gelo no campo amarelado, mas não na sombra e a imagem era muito bonita do campo amarelo iluminado pelo sol e as arvores com a sombra branca de geada.
A decida gelada de 4 km até o Arroio Peixoto, a igreja com a caixa d’água e ainda um local muito bom de pedalar, local quase plano em um percurso de aproximadamente 10 km com vista bonita para os dois lados. Decida do Abranjo de mais de 4 km, o rio Camaquã e o Bar do Neto, ponto de parada onde haviam alguns ciclistas.
Avistei a viatura da Policia Rodoviária Estadual e parei para conversar. Os policiais queriam tirar duvidas sobre o andamento dos ciclistas. Eu e o Isac ficamos por lá conversando por algum tempo enquanto eles verificavam os documentos vencidos de um caminhão. O pelotão de São Jerônimo tem mais de 1000 km de estradas sob sua jurisdição para fiscalizar e apenas uma viatura, mas estava lá para dar apoio aos ciclistas do brevet 1000 km. Muito obrigado e por favor, estes policiais merecem melhores condições de trabalho a viatura estava falhando!
Seguimos em um dos trechos mais cansativos do percurso até chegar na Coxilha do Fogo. O meu celular tocou e eu precisava atender, poderia ser o Miguel com alguma noticia ruim, ou sei lá, mas não era, UFA! Era o Leandro Bittar de revista Vo2max querendo saber informações sobre o brevet para colocar no site Prólogo, Segui pedalando e conversando. Pedi desculpa porque o nosso esquema de divulgação do brevet estava falhando. O Leandro ficou um pouco surpreso quando eu disse que estava pedalando o brevet no km 200. Descobriu que havia um organizador pedalante.
Chegamos no PC-1 depois das 13:30. Almocei muito e reabasteci a água. Segui com mais dois ciclistas. O retorno até o Rio Camaquã é mais fácil e o sol ajudava. Queria subir o Abranjo de dia e havia tempo para isto. No Bar do Neto havia uma turma parada por lá, resolvi seguir logo após uma rápida parada no asfalto para alongar. O Oswaldo vinha logo atrás e o Rogério Bernardes eu avistava mais a frente. Busquei o Rogerban no inicio da subida a subi conversando ( sozinho como ele mesmo disse em seu relato). No final da subida a noite estava chegando e paramos para alongar e colocar mais roupa. O Oswaldo nos alcançou e seguimos juntos por algum tempo até que fui me distanciando e segui sozinho por mais de 30 km até o próximo PA. Na subida um caminhão passa tirando fininho de min, com o pneu para dentro da linha branca. O acostamento é estreito e eu já estava com os pneus da bike quase no mato. Que motorista ........... Nas subidas próximo a Encruzilhada eu esquentei e estava feliz por que a noite não estar tão gelada. Cheguei o Posto Br ( PA) e o Miguel estava lá dizendo estar muito frio: “são 20 horas e já está apenas 3 graus”. E eu achando que estava melhor! Mais massa, arroz, molho e um copinho de café. Próxima parada em Pantano a 40 km de percurso fácil. Segui com o Cícero e o Trevisan.
Em Pantano Grande comi um pão e tomei 2 xícaras de café com medo de não dormir quando chegasse no hotel. Não senti sono, mas seguimos em um ritmo mais lento. Depois de Rio Pardo o Trevisan não estava bem e começou a reclamar do sono. Eu que incrivelmente estava quieto, comecei a conversar, bobagem é claro, para manter-lo acordado. O movimento da veículos é maior e cada vez que um veiculo vinha no mesmo sentido nosso precisávamos descer da pista para o acostamento. Em alguma destas descidas o Trevisan caiu, não se machucou, mas deixou cair um pouco da motivação que estava no bolso da camisa. O pedal estava lento e poderia ser melhor.
Chegamos no PC-2 aproximadamente às 2h. Pretendia dormir 3h no mínimo, mas perdi tempo, comendo, tomando banho- será mesmo que precisava?- escovando os dentes- coisa boa- e verificando detalhes da organização do brevet. O Edimar ( Graxa) havia desistido devido a um aro quebrado e estava no hotel, pedi para ele permanecer no hotel, controlando, ajudando a apoiando os ciclistas na saída e chegada nos PCs. Dei algumas orientações sobre o brevet e mostrei onde estava todo o material para os Pcs separado em caixas. Resumindo, dormi 2h e 30 minutos e acordei com dificuldade ás 5h. Tomei café e estava me preparando para sair e encontrei o Rodrigo Cortese, saímos juntos para a segunda etapa e o movimento na rodovia era grande. O acostamento como sempre, apesar do pedágio, muito ruim. Os motoristas, alguns mais educados, outros nem tanto. O Rodrigo andava na frente e eu atrás controlando no espelho- caminhão, desce! Carro, desce! Ônibus, desce!... O vento estava favorável e estávamos bem, mas não conseguíamos render muito devido às condições.
Em Candelária encontramos a Rosane Gomes, voluntária a torcedora controlando a apoiando os ciclistas. Depois realizamos uma parada rápida em frente ao Parque Witeck, local onde as obras na rodovia, e seguimos. O dia estava nublado, frio e o vento lateral tornava tudo difícil. Chegamos em Cachoeira do Sul e estava cansado. Paramos no posto de combustível para comer algo. Encontrei o ciclista local Marcelo Gazzaneo que passou por lá e perguntou: o que tu está fazendo aqui? E eu respondi: sabe que eu não sei! Ah! Lembrei, sofrendo um pouco, mas iremos sofrer mais para pedalar os 1000 km. Seguimos com o Cícero que estava passando.
Vento lateral e fome, mas chegamos no PC-3, são 8 pontos de controle, incluindo a chegada, andamos tanto e só tinha 3 carimbos no passaporte. O Pexe, Saul, Maico e Zezo estavam na nossa frente. Comer, comer, reabastecer a água e criar coragem para enfrentar o vento contra em uma reta de 47 km. Pretendia chegar de dia em Santa Cruz, mas esta etapa foi a mais difícil e demorou mais do que o esperado. Quase 3 horas para chegar em Pantano Grande. O Miguel estava por lá e fez algumas fotos e deu noticias dos demais ciclistas no brevet. Um senhor perguntou para o Rodrigo de onde estávamos vindo e ele, já sem muita paciência, começou a explicar a concluiu dizendo que faríamos 1000 km. O senhor olhou e disse: agora tu está me gozando, eu faço 1000 km de moto e fico cansado e tu me diz que vai fazer mil de bike? Eu disse para o Rodrigo: deixa, nem perde tempo explicando e vamos embora. Fizemos um lanche e saímos para mais 50 km até o pc-4 no hotel.
Novamente acostamento ruim e estrada com muito movimento de veículos. Os motoristas de caminhão não aceitam que o ciclista pedale em cima da linha branca. Fazem o ciclista sair, ou cruzam por cima, mesmo que não venha veiculo algum no sentido contrário. Este percurso é onde isto fica mais nítido e freqüente. O vento parou, sorte de quem estava atrás. Chegamos em Rio Pardo na tardinha de uma sexta feira. Que lugar horrível de pedalar neste horário. Na ponte sobre o Rio Jacui tivemos que parar para esperar os veículos, depois tivemos que andar contra mão, retornar, voltar para a mão certa, parar e descer da bike para nos manter vivos. No trevo um caminhão da empresa Cone Sul que transporta lixo nos ultrapassa a mais de 100 km/h ignorando os ciclistas, pedestres, demais veículos,.. Fiquei pensando: será que o tipo de carga tem alguma relação com a ignorância e prepotência do motorista? Caminhão boiadeiro, que transporta lixo e madeira não os piores, mas e os ônibus que transportam pessoas? Uma coisa é certa! A prepotência e ignorância do motorista tem relação com a ganância do dono da empresa que explora o serviço deste profissional que nem sempre é assim. Quando saímos do trecho de estrada com tachões no eixo da pista (a colocação destes tachões parece ser a maior obra da Concessionária Santa Cruz Rodovias) me senti mais aliviado. Perdemos mais de ½ hora para pedalar um percurso de pouco mais de 3 km, mas estou vivo para escrever este texto.
Em Santa Cruz do Sul passamos em frente a loja Faccin Bicicletas, loja apoiadora do brevet Farrapos 1000 km, e havia uma pequena torcida para nós, nem paramos e apenas gritei: 650 km! Chegamos no hotel com vontade de ficar para dormir, mas era muito cedo e queríamos cumprir o planejado, ou seja dormir no PC-5. Reabastecemos os estoques e seguimos. Antes de nós apenas o Pexe e o Saul haviam saído do PC-4. O Cícero resolveu dormir 1h antes de seguir. A dupla Maico e Zezo estava dormindo e pediu para serem acordados a ½ noite. Pensei: estes catarinas vão acabar ficando aqui e desistindo. Recebi noticias de outros desistentes: Erich, Érika e Oswaldo. A previsão era de chuva forte em todo estado, mas caramba! Está frio e ainda vai chover? Seguimos para jantar em Venâncio no restaurante Casa Cheia que atende até a ½ noite. Chegamos lá quase na hora de fechar e o restaurante estava vazio! Estávamos em 4 ciclistas: eu, Udo, Claiton e Rodrigo, mas o Rogério Bernardes chegou depois.No Restaurante ficamos um tempão conversando e rindo. O Carlos Calvete, mais um voluntário no brevet, também chegou por lá. Eu estava com fome, mas não conseguia comer e estava com dificuldade para mastigar e parecia estar cheio.
Saímos os 4 ciclistas e fomos juntos até o PC-5. O Rogério ficou por lá. A chuva ameaçava vir e não vinha. O asfalto até que estava molhado, mas ela não veio. Valeu São Pedro! A gente agradece, mas o Pexe não pode fazer o mesmo já que foi atingido por uma chuvarada, mas o Pexe é peixe!Estava frio, mas era suportável. O nosso ritmo era lento e o sono, mas que sono? Eu não sentia nada de sono, não dava muito tempo pois eu e o Rodrigo conversávamos besteira o tempo todo.
Antes de Lajeado encontramos o Pexe que já estava retornando do PC-5. Eu disse aos demais: vem comigo e confirma tudo o que eu disser. Fui contra mão e parei o Pexe: é o seguinte, você sabe a questão da distribuição das 10 medalhas ACP1000 km- agora mudou, a entrega vai ser por ordem de chegada dos ciclistas no brevet e vale tudo para garantir uma medalha destas. Então, como você está na frente e a gente não está entre os 10 primeiros ciclistas, nós iremos te tirar do brevet agora! O Udo disse que iríamos cortar os pneus de bike do Pexe e ele não sabia se ria, ou fugia. Depois de muita risada ficamos um tempo conversando e nem lembrava que estávamos no brevet Farrapos 1000 km.
Em Arroio do Meio tinha um bailão movimentado. Um Passat azul ( dos antigos) vinha rápido acelerado na contra mão e no acostamento, ou seja, em nossa direção. A adrenalina foi a mil e o susto foi muito grande. Não sabíamos para onde ir até que o desgraçado estacionou ao lado de outros carros, que alivio! As pernas cansadas estavam bambas. Uma mulher estava no centro da pista gritando: Seu desgraçado! Tu não me ama! Eu gastei dinheiro... Um caminhão vinha embalado na descida e a continuação da sena seria terrível, mas o motorista conseguiu frear a tempo de evitar o pior. Ufa!
Do restaurante Casa Cheia até o PC-5 são 70 km com varias subidas e levamos quase 4 h para fazer este percurso. Subida e mais subida, corpo dolorido, fome e chegamos às 4h no PC-5 do Hotel Hengu de Encantado, RS. O Daniel e o Henrique estavam lá. Acordamos o dono do hotel e pedimos a sopa. Cansado combinamos de dormir por 2 horas, sem banho para evitar perda de tempo. O dono do hotel começou a servir a sopa em um tacho grande, mais um, outro. Eu estava na sexta servida de sopa e disse: chega de trazer sopa senão a gente não vai ter tempo de dormir. Fomos dormir às 4:30h. Deitei com roupa, apenas tirei a sapatilha, meia e corta vento. Antes de dormir de dormir eliminei o peso dos intestinos.
Duas horas depois o telefone tocou. Eu deitei agora, deve estar errado! Que nada era 6:30h. Levantei logo e estranhei. Não sentia dor alguma, era como se eu tivesse tomado um potente remédio para a dor. Eliminei mais um pouco de peso, comi mais alguma coisa, reabasteci a água, paguei a conta.
Comi, dormi e eliminei peso= estou novo, ou quase!
Saímos gritando Arebaba! Arebaba! O Udo e Claiton já haviam saído. O meu telefone toca, era o Udo querendo saber se eu não tinha encontrado nada em cima da mesa na frente do PC que estava em frente ao hotel. Menos mal que não era nada pior. Cruzávamos pelos demais ciclistas que se dirigiam para o PC-5. Fiz a lista da ordem em que os 17 ciclistas estavam no brevet. Queria postar no blog estas informações. O dia estava bom e com nuvens e estava esquentando. Calculei o horário que chegaríamos no PC-6 novamente em Santa Cruz do Sul. Liguei para casa e falei com a minha esposa. Encomendei a massa para 2 ciclistas, mas não precisava fazer muito porque não queria sair muito pesado para a ultima etapa. Alcançamos o Udo e Claiton. O Udo levava uma sacola com bergamotas ( mexiricas ) pendurada no guidão e foi oferecendo para reduzir o peso. Não paramos no Restaurante Casa Cheia e seguimos para Santa Cruz.
No pedágio avisei os demais ciclistas e fui na frente abrindo caminho na pista exclusiva para motos. Coloquei os cones mais para o lado permitindo que os ciclistas cruzassem sem ser por cima dos tachões da pista. O funcionário do pedágio veio na minha direção, mas eu ignorei e continuei colocando os cones para o lado, ele não sabia o que fazer e nem o que dizer, nós seguimos.
Depois do pedágio encontramos o Rogério Giron Claumann ( Zézo) e o Maico Bez Birolo, os dois estavam retornando para casa e haviam parado para fazer algumas fotos dos ciclistas. Parei rapidamente, larguei a minha bike e falei: o que vocês estão fazendo aqui? Vocês merecem levar um tombo por terem desistido. Cheguei ao lado do Rogério e empurrei ele que não resistiu e caiu deitado na grama ao lado do acostamento. O Maico ria e não parava e eu disse: Você também. Empurrei ele já foi se largando para deitar no chão. Pior que não conseguia levantar de tanto rir. Acho que esperava encontrar um grupo de ciclistas muito cansados, mas teve uma surpresa com a minha brincadeira. Ficamos ali conversando algum tempo. O Miguel chegou por ali e fez algumas fotos do grupo.
Chegamos no Pc-6 próximo ao ½ dia. Troquei a blusa, reabasteci a água, esperei um pouco o Rodrigo e fomos almoçar lá em casa. Puder ver a família, almocei a ainda fiz uma postagem no blog.
Seguimos para a ultima etapa. O dia teve alguns momentos de sol e nublado, mas esquentou e estava abafado. No percurso até Pinheiral cruzamos por todos os demais ciclistas do brevet, entre eles estava a Lidiane que subia girando bem.
Na subida do Cerro da Boa Esperança senti muito calor. O Miguel nos alcançou e ficamos conversando por algum tempo enquanto ele fazia algumas filmagens. O vento estava fraco, mas contra. Na subida já não tínhamos a mesma força. Depois da ponta sobre a ferrovia encontramos o Pexe que já vinha retornando e queria completar o brevet ainda de dia. Algum tempo depois encontramos o Saul também retornando.
Eu e o Rodrigo, desde o PC-3 estávamos projetando o nosso horário de chegada. Apesar do ritmo lento na madrugada anterior, estávamos dentro do planejado. Pensamos em chegar ainda de dia ao PC-7 ( até 18h) e resolvemos não parar no Pesque e Pague Panorama. O Claiton estava por lá e também havia algum outro ciclista.. O percurso de Pinheiral até General Câmara tem mais subidas, mas acho que foi a primeira vez que notei isto pois nas pedaladas anteriores sempre estava mais descansado.
Enquanto pedalava, se não estava conversando eu pensava, deixava os pensamentos correrem soltos. Durante várias vezes pensei na conquista e de como seria receber a medalha de Randonneur 5000. Lembrei das palavras do David que disse ter lido que receber esta medalha é mais emocionante do que receber a medalha do Paris Brest Paris. Lembrei de todos os brevets pedalados desde 2004, das corridas de aventura, dos momentos difíceis e também dos bons momentos, mas do enorme trabalho que tive para chegar até aqui. Pensei nos poucos quilômetros que ainda restavam para concluir o brevet e me separavam desta medalha. Tentava planejar o futuro e pensava na organização de algum brevet Audax em 2010.
As forças estavam acabando e estava faltando energia. Comia alguma coisa do meu estoque, mas representava não fazer efeito. Chegamos no Pc-7 antes das 18h e ainda era dia, mas estava esfriando novamente. O PC estava muito legal com caminhão, mesa com toalha, frutas, sopa, café, cadeira de praia e lembrava um piquenique. O atendimento dos voluntários nota 11. Deu vontade de ficar ali conversando, mas a intenção era chegar antes da ½ noite.
Depois da sopa o rendimento melhorou e até o retorno ao Pesque e Pague o percurso mais fácil ajudou. Conversamos sobre o nosso tempo na chegada e decidimos completar o brevet em menos de 70h, mas poderíamos tentar completar em menos de 68 horas. Resolvemos tentar. Começamos a encontrar os demais ciclistas que seguiam para o PC-7. No escuro era difícil identificar cada um. Chegamos no Pesque e Pague e parei para conferir como estava a programação para os pratos de massa. O pessoal do PPP, sempre prestativo me avisou que estariam atendendo até a chegada do ultimo ciclista no retorno o que deveria ser depois de ½ noite. Acertei detalhe do pagamento e etc. O Rogério Bernardes estava lá, dormindo com a cabeça em cima da mesa. Acordei ele que me perguntou se o Isac e o Mogens já haviam passado. Seguimos e logo depois encontramos o Isac que disse ter abandonado o Mogens que estava muito lento e pediu para a gente conversar com ele e ver como estava pois havia caído um tombo. Disse para ele não se assustar que o Mogens estava acostumado a cair. Disse para o Isac seguir. Alguns metros depois encontramos o Mogens que vinha muito lento na subida, mas pedalando e disse estar bem.
Agora a única preocupação era chegar e a chuva que vinha chegando. O cerro da Boa Esperança subimos com dificuldade e descemos com cuidado. Quando chegamos em Pinheiral no km 1000 a chuva veio com força. Teoricamente já estávamos com o brevet de 1000 km, mas ainda faltavam 17 km até a chegada. Estava com a calça impermeável no alforje, mas nem quis parar para colocar. Descemos com cuidado e andamos rápido na cidade.
Chegamos no hotel às 23h e 29 minutos com o tempo de 67h e 59 minutos. Depois de guardar as bikes tentei ligar para a minha esposa que não atendia a ligação. Tomei banho e coloquei roupa seca e fiquei conversando com o Pexe e Edimar. Comi e tomei algo. O Giovane e família estavam no Hotel e saiu para levar o Claiton para casa logo após a sua chegada. Próximo a 1h eu consegui conversar com a mulher. Eu estava feliz por ter chegado, mas com sono e sem o carro. A chuva estava muito forte e resolvi dormir no hotel mesmo contra a vontade da esposa. Se acontecesse algo de imprevisto no brevet eu estaria em local melhor para poder ajudar.
Quando acordei fiquei sabendo que todos haviam chegado bem. Tomei café, peguei o carro e fui para casa, mas logo retornei para a premiação. Se conquistei alguma medalha ou brevet, a minha família tem uma boa parcela de méritos e provavelmente o meu filho seja o que mais tenha sofrido com isto.
Hora da premiação.
Ciclistas cansados, parentes amigos. Imprensa? TV? Radio? Claro que não, só se fosse campeonato de futebol, mesmo que da 4º divisão da liga citadina de futebol de várzea para veteranos. A imprensa não estava, mas este foi um trabalho que não tive tempo de fazer. Sempre preferi me preocupar com as muitas outras tarefas para se organizar um brevet, a imprensa ficou como se possível, mas teria e trabalho e disposição para conseguir uma reportagem na melhor revista especializada em ciclismo do Brasil. Lembram do telefonema que recebi antes de chegar no PC-1?
Todos os participantes do brevet 1000 já haviam pedalado também os brevets de 400 e 600 de Santa Cruz neste mesmo ano. Ao contrário dos brevets menores, quando o ciclista chega e quer pegar a medalha para sair correndo para casa, a partir do brevet de 400, eles aprenderam a aproveitar o momento de celebrar a vitória, ou seja, a cerimônia de premiação. Isto ficou mais evidente a partir do brevet de 400 km. Talvez porque eu tenha conduzido a cerimônia de forma mais descontraída e informal, por vezes até irônica, sempre que possível anunciando detalhes e curiosidades de cada participante. Vale lembrar que conheço todos e já pedalei com muitos deles.
No brevet Farrapos 1000 km todos os participantes brevetados e voluntários se conheciam dos brevets anteriores, nas mais do que isto, eram amigos e isto transformou os brevets em encontros muito agradáveis. Não sei se algum dia teremos outra oportunidade de ter um clima assim em outros brevets. A esperança é que este clima de amizade permaneça e que as experiências vividas na série até 1000 km do Santa Ciclismo sirvam de motivação e bagagem para conquistas maiores. Agora quando escrevo este texto, depois de ter participado do brevet Audax de 100 km de Santa Maria, afirmo que os ciclistas participantes do brevet 1000 km não são mais os mesmos, agora são muito mais amigos.
Na premiação eu não estava com pressa e ninguém parecia estar. Cada ciclista recebia a sua medalha e certificado, posava para as fotos e depois tinha que fazer algum discurso ou comentário sobre a sua participação. A premiação iniciou às 11h e só acabou depois das 14h. Alguns ciclistas estavam muito emocionados em seus discursos, inclusive eu. Alguns destes discursos podem ser vistos nos vídeos realizados e que foram colocados no You Tube ( Farrapos 1000 km).
Fui o ultimo a receber a minha medalha e fazer o meu discurso quando falei sobre a minha possível medalha de Randonneur 5000 e li o regulamento que havia traduzido ainda em 2008. Depois iniciamos uma conversa sobre a possibilidade de organizar um brevet de 1200 km aqui no Brasil e até hoje ainda não dei como encerrada a cerimônia de premiação do primeiro brevet de 1000 km do Brasil. Este brevet foi o mais longo evento ciclístico realizado de forma ininterrupta no Brasil no ano de 2009.
A premiação do brevet Farrapos 1000 km continua com a divulgação dos relatos, com a reportagem sobre o brevet na revista Vo2 Max, com as lembranças, vídeos e fotos, ....
Depois eu ainda tinha que guardar o material do brevet no hotel, recolher as minhas coisas no quarto etc.
Só cheguei em casa para almoçar depois das 16h

Luiz Maganini Faccin
Paris Brest Paris 2007
Fleche Velócio 2009
Serie até 1000 em 2009
5000 km em outros brevets pedalados desde 2007
Lutando por uma medalha Randonneur 5000 em 2009..


Frases do livro Tempestades e Calmarias
Diogo Guerreiro, Editora Marco Zero

Nossa mente nos leva por caminhos traiçoeiros, preguiçosos e comodistas. Foi preciso enfrentar verdadeiras dificuldades para perceber que a antiga situação não era tão ruim.

- Vocês devem sempre esperar por condições boas para decidir sobre a desistência. Quando o vento está forte e o dia está nublado e frio, ai é fácil desistir. Nas, prestem atenção, se mesmo com um dia bonito de sol e bons ventos vocês quiserem abandonar a viagem, então é porque realmente devem.

A inércia e o comodismo são os atributos que mais retardam a nossa evolução.

..., afinal, o que seria da viagem se não fosse a superação dos desafios?

Fiquei grato por ter sentido isso. Que vida maravilhosa podemos ter se nossos desafios são desejados.

sexta-feira, 28 de agosto de 2009

Videos Farrapos 1000 km- na estrada

Videos realizados na estrada ou em algum PC ou Pa do brevet 1000 km

Lazary

Lidi e Jéferson

Faccin e Rodrigo

Jonas e Erich no Abranjo

Saul

Saul Vídeo 2

Claiton

Jéferson

Pexe

No escuro e na chuva

Pc-1

Raabelândia

Almoço Fita Azul

Érika ahãm

Erich e Jonas

Mogens Chegada

Rogerban

Mogens a Lazary chegada

Videos Farrapos 1000 km- premiação

Com a ajuda da minha filha Carolina estão no You Tube alguns videos curtos realizados durante o brevet Farrapos 1000 km.
Os videos são obra do Miguel Lawisch, Jonas Ruschel e Erich Brack.
Todos os direitos surrupiados!

Premiação 1

Premiação 2


Premiação 3


Lidiane premiação e relato

Udo

Claiton

Erika

quinta-feira, 27 de agosto de 2009

Relato Farrapos 1000 km- Lidiane

Relato da Doída 2 (obs: foi ela quem escreveu isto!)

O Randonneé 1000km começou logo após concluirmos (Eu e minha grande amiga e companheira de loucuras Gaby) o Randonneé 600km, afinal não podíamos pensar em 1000km sem antes concluir os 600km.

Como nos Randonneés de 400km e 600km não havia treinado muito, devido ao temido TCC (Trabalho de Conclusão de Curso), para os 1000km não tinha mais esta preocupação, o único objetivo naquele momento era treinar, treinar e treinar para os 1000km. Apesar do tão temido frio previsto para o Randonneé dos Farrapos o que realmente me preocupava era o tempo, pois como não é novidade para ninguém sempre éramos nós (Eu e Gaby) que fechávamos as longas provas, sendo que nos 600km faltavam apenas 2 minutos para o termino da prova.

Estávamos preparadas para o que estava por vir, prestamos muita atenção na reunião na noite anterior, afinal sempre aprende-se muito com os mais experientes. O Luiz havia comentado que seria interessante não perder muito tempo nas paradas, afinal não teria como completar a prova sem descansar algumas horas. Logo após terminar a reunião, o Udo conversou conosco e disse para não desperdiçar os coringas, que na verdade era o “tempo extra” da prova, pois nos 400km tinha-se 27 horas para completar e nos 600km 40 horas, totalizando 67 horas. Então os coringas eram às 8 horas a mais que há nos 1000km. Escutamos atentas e dispostas a não desperdiçar este tempo.

Às 3 horas e 30 minutos do dia 30 de julho, partimos para o que até aquele momento era apenas um sonho. Estava tudo correndo conforme o planejado, claro estávamos lentas e éramos as últimas da prova, mas não era nenhuma novidade. Encontramos o Mogens após o Abranjo e ele pedalou durante algum tempo conosco. Ao chegamos no Fita azul almoçamos-jantamos afinal eram passadas das 16 horas.

Como já iria anoitecer o Mogens revolveu nos acompanhar, com a noite o frio voltou com mais intensidade. Além do frio o sono começa a assombrar, assim revolvi girar mais rápido para esquecê-lo. Percebi que a Gaby não girava com a mesma rapidez e isso era preocupante, no entanto, não esperava a desistência dela ao retornarmos ao restaurante em Encruzilhada, fiquei muito abalada, o sonho do brevet 1000km seria adiado. Este sem sobra de dúvida foi o momento mais triste da prova. Mas estava bem fisicamente e psicologicamente e disse que iria retornar ao hotel e lá decidir o que faria. O Mogens me acompanhou até Santa Cruz, neste percurso encontramos a Érika e seguimos com ela de volta ao Hotel. Quando chegamos em Rio Pardo revolvemos fazer uma pequena parada em um posto. Apesar de pequena foi o suficiente para gelar todo o corpo, assim decidi que não parar mais até chegar ao hotel. Cheguei às 6 horas e 20 minutos marquei meu cartão e subi para o merecido e breve descanso. Mogens e eu havíamos combinado de nos encontrar no saguão do hotel na manhã seguinte às 8 horas. A primeira etapa havia sido vencida.
Eram 8 horas e 45 minutos quando o Graxa bate a porta dizendo que eu estava atrasada e que o Mogens esperava. Naquele momento estava triste e sem vontade de levantar da cama e continuar. A Gaby que estava no quarto disse para continuar que estava bem na prova. Mas ela sabia que para mim sua companhia era de suma importância e faltava mais da metade da prova. Então tomei a decisão de desistir, no entanto, o telefone toca e ao atender escuto a voz do Mogens (ele estava realmente chateado), falou que eu havia o atrasado na noite passada e que agora devia seguir com ele. Não pensei duas vezes, levantei da cama, me arrumei e segui com ele e a Érika para a volta na quadra. Almoçamos em Candelária e seguimos em direção ao restaurante Papagaio. Pedalei boa parte deste percurso sozinha. Peguei vento lateral, fiquei feliz poderia ser contra. A Rosane apoiando sempre, dizendo que faltava pouco, que estava bem na prova. Essa mulher é fantástica!
Chegando ao restaurante Papagaio tomei um belo café. E logo após decidi seguir sozinha pela BR 290, para chegar o quanto antes ao Hotel e descansar novamente. Fiz uma pequena parada na Raabelândia para comprar duas Coca-Cola. Na entrada de Santa Cruz do Sul encontro o Jéferson que estava com muita dor no joelho, mas disse que não desistiria por causa disso. E fomos até o hotel conversando e contando nossas estratégias que naquele momento eram diferentes. Chegamos às 23horas. Segunda etapa concluída.
Pedi ao Graxa para me chamar 15 minutos antes do Mogens acordar, para dar tempo de me arrumar e espera-lo no saguão do hotel. O Jéferson disse que iria sair 1 hora e 30minutos, uma hora e meia antes de nós, me surpreendi quando desci ao saguão e o Graxa disse que ele ainda não havia saído de seu quarto. Então pedi para ligar e acorda-lo.
Seguimos Eu e Mogens até Encantado, o Jéferson havia saído um pouco antes de nós. Ao chegar na subida na saída de Santa Cruz, deslizo e acabo caindo, o que naquele momento foi até bom, pois estava com uma jaqueta e não conseguia respirar direito. Levantei-me rapidamente abri a jaqueta e seguimos. Encontramos o Jéferson um pouco antes de Cruzeiro do Sul, e seguimos até o hotel Hengu. Marquei meu cartão e segui viagem, não quis parar muito tempo, Mogens decidiu ficar para tomar uma deliciosa sopa de capeletti. Voltei a encontrar o Jéferson em Venâncio Aires, esta foi à parte mais rápida da prova. Chegamos em Santa Cruz às 14 horas e 35 minutos. Fiquei preocupada quando percebi que meu nariz estava sangrando, isso nunca havia acontecido antes. Mas para quem havia chegado até ali, não iria desistir depois de mais de 900km. Limpei rapidamente o “sangrento” e rezei para parar.
Partimos para a última etapa, Eu e Jéferson paramos na Lancheria Schuster, o nariz não havia me obedecido. Estava sangrando novamente. O Jéferson percebeu e me perguntou se isso acontecia com freqüência, disse que sim, uma pequena mentira. Seguimos então em Direção a General Câmara encontramos o Pexe, ele como sempre muito solidário perguntou se precisamos de alguma coisa. Ainda na entrada de Passo do Sobrado tive o agradável encontro com a Tina e o Ricardo, que me deram grande apoio e incentivo, Obrigada!
Jéferson começava a irritar com a sua Buzina, mas mantive-me calma e respirei fundo. Finalmente chegamos ao Pesque - Pague, abastecemos as garrafinhas de água e seguimos em direção ao mais maravilhoso PC, lá tomamos uma sopa maravilhosa com pão caseiro e um café divino.
Um pouco antes de retornarmos ao Pesque - Pague a chuva começava a sair, chegamos lá encharcados. Comemos a massa caseira e nos preparamos para a volta, improvisamos uma capa de chuva e lá também ganhamos a companhia do Dacivaldo, que nos acompanharia até a conclusão da prova. A chuva era intensa e nos deixava mais lentos, então o Dacivaldo nos sugeriu que pedalássemos com um ritmo constante. Adorei a idéia, pois estava cansada e não via a hora de retornar a Santa Cruz. Então às 3 horas e 28 minutos do dia 2 de Agosto o sonho que havia iniciado no dia 30 do mês passado tornou-se realidade.
A emoção foi enorme, mas não teria conseguido sozinha, por isso, agradeço infinitamente a Gaby, por estar comigo em toda a série 2009. Se não fosse por você nem teria participado deste longo evento. Muito Obrigado! Esta conquista é nossa. A Rosane pelo apoio e incentivo não só apenas nesta, mas em todas as demais provas. Ao Miguel pela preocupação com todos os participantes deste Randonneé. Mogens, por não deixar eu ficar na cama e pela companhia em boa parte do percurso. Jéferson Buzina pelo companheirismo e amizade. Ao Dacivaldo pela última etapa. Ao Udo pela dica dos coringas. Bughera por ficar me “enchendo o saco” toda vez que eu entrava no MSN e perguntava se eu já havia me inscrito. E a todos que torceram por mim.
Sim as mulheres também são capazes, temos muita fibra, garra e determinação.

Lidiane Tamara Lauermann

quinta-feira, 20 de agosto de 2009

Relato Farrapos 1000 km- Jonas

Como foi fazer a séria completa até 1.000 km no primeiro ano de Audax

Por JONAS RUSCHEL
Agosto de 2009

INTRODUÇÃO
Quando um amigo falou-me que foi a França (PBP 2007) com o objetivo de pedalar 1200 km eu, a princípio, julguei-o louco. Poderia ter outra explicação para tal insanidade? Pior que tinha...
Conversando com esse “super sujeito”, no quarto trimestre de 2008, fui criando curiosidade sobre o tal de “Audax” e vasculhei vários sites sobre o assunto. Em novembro comprei uma MTB e em dezembro de 2008, com a assessoria desse meu amigo e incentivador, defini que compraria uma bike speed. Obrigado Ricardo de Araújo Pereira, pela ajuda, incentivo e amizade.
A bike speed (Sundown RS3) foi adquirida em janeiro de 2009 e já na estréia da bike (75 km na companhia do Ricardo Pereira, com conseqüente dor na bunda, pernas e demais parte de um a pseudo ciclista que só usava uma bicicleta para ir a padaria) veio o primeiro tombo “clipado”, ou seja, espera-se a bike parar para depois lembrar-se que os pés estão dentro de sapatilhas clipadas aos pedais. O mais ridículo e humilhante e ter de pedir ajuda aos demais ciclistas para conseguir desenganchar da bike.
Na seqüência descobri em uma lista de e-mail um doido convidando para treinar para o Audax 200 km de Brasília, o famoso “frita bacon”. Foi nessa ocasião que conheci o ilustre escriba, ciclista e dentista nas horas de folga Roger Ban (o Ban do Brasil, digo Rogério Bernardes). O objetivo era rodar aos sábados de madrugada das 06:00 h até 10:000 h, sempre no ritmo do mais fraco, e após voltaríamos ao ponto de partida. Logo na segunda edição do Frita Bacon (a primeira tinha sido um pedal solitário do mestre Ban) fomos premiados com a companhia da Super Nara Biker e, lógico, a quantidade de ciclistas havia triplicado nessa edição (passou de um para três ciclistas). Ver relatos em http://diariodoescriba.blogspot.com/
Passaram-se alguns dias e conheci uma lista de ciclopatas intitulados “ciclismo de Longa Distância”. Entrei em contato com um dos ciclopatas e esse, gentilmente convidou-me para participar do grupo, alegando que “o mais certinho atirava pedra em avião”. Obrigado guru Osvaldo Nunes pelo convite, incentivo e, principalmente, pela amizade. A partir deste ponto foram tantos os amigos e mentiras contadas e escutadas que encheriam umas 10 páginas e, portanto vou encurtar a história.

PREPARAÇÃO PARA O DESAFIO
Psicológica
Li numa ocasião que o Luiz M. Faccin (dublê de empresário ) escreveu que um Randonnée passa fome, sede, sono e frio. Quando lia os relatos dos ciclistas mais experientes a respeito de preparação psicológica ficava sem entender. Preparar o quê? A cabeça, o corpo ou a alma? Só fui entender um pouco de preparação psicológica após o Audax Farrapos MIL e como tem muita de gente que fala um monte bobagens e uns mais corajosos escrevem, agora chegou a minha vez....
Essa preparação psicológica, no meu entendimento, começa com a administração do stress doméstico.
É muito difícil fazer entender-se aos pais (aos felizardos que ainda os tem) e a(ao) respectiva(o) companheira(o)/namorada(o)/esposa(o) a satisfação, o sentimento de liberdade ao sair para pedalar nos finais de semana, as novas amizades conquistadas e tudo o resto. Pode ser 50, 100, 600 km, ou quem sabe 1.017 km.... As alegações são as mais diversas possíveis.
A dos pais: “tu tá ficando louco? Pra quê uma coisa dessas? Não tem necessidade...”. Bueno, sempre fui meio louco. Vocês nunca perceberam nada?
A da esposa/companheira/namorada e afins: “Já vai sumir de novo? ”A sobrecarga do lar/crianças fica toda nas minhas costas?
Depois de pedalar e pensar um pouco me surgiu a seguinte dúvida: Será que três sessões semanais de terapia não ficariam mais barato e menos estressante que andar de bike? Fico imaginado em estar deitado no divã, proseando, contando uns causos, tomando um mate amargo....o grande problema seria encontrar um psicanalista meio xucro do tipo “O analista de Bagé” (Autor Luis Fernando Veríssimo, recomendo a leitura) aí o índio estaria meio enrolado, pra não dizer coisa pior.
Continua com toda a preparação e gastos para participar de um evento tão majestoso com um Audax e encontrar uma enormidade de dificuldades em prosseguir com o desafio como pneus furados (eu não tive pneu furado durante toda a série, ou seja, foram 2.500 km sem furar pneu, mas a Érika que teve 5 ou 6 furos no Audax 300 km de Brasília, o Faccin no PBP/2007 teve vários), falta d`água, sono, fome, quebra da bike ou queda/capote (com a minha aos 65 km do Audax 200 km de Brasília). Bueno, será que é difícil pedalar mais 135 km com as costelas, braço e ombro doendo? O que será que passou na cabeça do Faccin quando a central do K7 falhou e/ou quando teve uma sucessão de furos em pleno BPB/2007? O que será que o Erich Brack fez no BPB/2007 quando, por problemas nas mãos, não conseguia mais tirar a tampa da válvula/ventil para trocar a câmara de ar? Ou a Érika ao furar o pneu pela quinta ou sexta vez, debaixo da maior chuvarada? Rezar, chorar, desistir ou persistir? Eu persisti e superarei as adversidades e, acho que os meus amigos também.

Física
Lá nos primórdios da série do Audax a preparação começou com o Frita-bacon®, passou pelo Vampirax® e chegou ao Maguilão 5.0® (http://diariodoescriba.blogspot.com/).
O Vampirax® foi uma simulação do percurso e horário do Audax 300 km Brasília (saída a meia noite e pedalamos até o sol raiar, ou seja, até espantar todos os vampiros).
O Maguilão 5.0® foi direcionado ao Brevet Farrapos MIL, haja vista que já sabíamos que a primeira perna dos MIL teria muitas subidas e seria meio espartano, coisa do gringo Faccin que gosta de uma serra. Consistia em 5 rounds composto por duas “subidinhas” básicas: a da matinha e a 8%. Foi uma verdadeira sessão de musculação e, ninguém chiou. Tá certo que foram somente três doidos que se encorajaram: RogerBan, Jander e eu. Eu fiquei com as pernas doloridas a semana inteira e não contei nada pra ninguém heeheh somente agora.
O outro treino maluco (South Lake) realizado consistia em colocar a bike no carro na noite anterior, acordar as 04:00 horas, pegar o carro, rodar 36 km até o ponto de encontro (posto do ciclista/Texaco do Lago Sul) e, pontualmente às 05:00h o RogerBan passava no posto (ele vinha rodando de casa, uns 15 km) e pedalávamos 40 km, das 05:00 até as 06:30h. Eu pegava o carro e ia pra casa por a mesa pra minha digníssima tomar o café e o RogerBan pedalava mais 15 km até o destino dele. Forma uns três treinos com esse nobre colega. 120 km acumulados.
Com a colega e Amiga Érika foram três treinos, a saber: 86 km sendo que os dois ciclistas (ou aprendizes de ciclistas) rodaram de MTB (Extra N, L4 Norte, Lago Sul, Extra N); 54 km realizados no Lago Sul (eu de Speed e ela de MTB: que provalecimento....e sofri pra acompanhá-la eheheh) e o último (52 km do Extra N, Parque da cidade, Extra N) em pé de igualdade: ambos de speed...aí eu sofri de verdade...”etâ muié” que pedala. Com Speed ela ganha até do “velhinho que anda pra caramba numa Pinarello/PF3 azul” eheehehh.
Bueno, o restante que falta para fechar 900 km do treino/pedal realizados em 20 dias pré-Farrapos foram distribuídos em pedaladas ao amanhecer (das 05:30 – 07:30 horas) com um MTB adaptada para rodar no asfalto (pneus lisos), vespertinas e noturnas com Speed. Como foram esses foram pedais solitários, tornavam-se tão chatos que as distâncias percorridas nunca eram maiores que 40-50 km/dia.
Quando eu finalizei 900 km de preparação físicas numa quinta-feira (uma semana antes da prova) conversei com “velhinho que anda pra caramba numa Pinarello/PF3 azul” e perguntei se já era quilometragem suficiente e este me justifica que NÃO, deveria rodar até a véspera da prova. Eu já estava meio aborrecido de tanto treinar. Nunca havia treinado de maneira tão séria pra qualquer prova de Audax. Liguei pro “Dublê de empresário” lá nos pagos de Santa Cruz do Sul e esse, naquele jeito especial de ser, me garantiu que era suficiente e que ele próprio havia treinado/rodado uns 380 km. Aí eu fiquei mais calmo.
Li em algum post, acho até que foi o professor de educação física e amigo Rafael de Porto Alegre que escreveu, que é muito proveitoso pedalar 30km/dia ao invés de pedalar 150 km uma única vez no final de semana. E foi com metodologia que realizei a minha preparação/treino para o Brevet Farrapos MIL, haja vista que os treinos nunca tinham mais de três horas de duração e o mais longo foi de 86 km. A grande maioria teve duração de 1,5-3 horas e a distância média de 40 km. Infelizmente não houve tempo e oportunidade de realizar treinos maiores de 100 km em um único dia.

Sono, o grande vilão
Tirando os motoristas (carros, motos, caminhões e afins) acredito que seja o segundo pior problema/risco do ciclismo de ultra distância. Pode-se tomar café, cafeína, coca-cola, guaraná em pó, mastigar chicletes, “rebite” ou outras tantas porcarias (tem umas tão fortes que quase furam o estômago - uso só chimarrão, café e coca-cola, muita coca-cola ehehhh). Mesmo assim haverá um momento que essas porcarias perderão o efeito e a queda é quase que premeditada. Deve-se torcer para cair pro lado direito da pista (acostamento) se for o contrário pode ser melhor ou pior, depende das circunstâncias e do trânsito. Tem uns que preferem usar “buzina”, pedalar em dupla/trio e conversar (ou contar mentiras, depende...) o percurso todo. Chegar descansado à prova (dormir de modo adequado alguns dias antes da prova), não fazer horas extras antes da prova (deixe para depois da prova), e evitar sobrecarga de trabalho, também ajuda e muito.
Nada melhor que uma paradinha em alguma praça de pedágio, ponto/parada de ônibus e/ou banco de restaurante para uma “super dormida” de 20-40 minutos.

PRÉ-PROVA
Na chegada ao hotel, com todas as tralhas, já começou a alegria. Um monte de malucos reunidos em um único local e, por enquanto, ninguém estava fedendo eheheehehe....
Começou a distribuição do material do Brevet e já começaram as reclamações: “Qual o motivo que o Faccin quer ver o colete? Porque isso, porque aquilo...?” Passado o stress inicial veio o congresso técnico/briefing com todas as explicações do percurso. Foi destacado que nas provas anteriores (400 e 600km) houve a oportunidade de escolher e/ou definir o horário de saída de tal modo que os percursos/trechos mais perigosos pudesse ser pedalados em um horário mais compatível e seguro e, que durante o Brevet Farrapos MIL isso não seria possível, pois teríamos ciclistas passando pelos trechos perigos em horários diferentes, ou seja, entre o Pexe e o último (que não foi o meu amigo Lazary). Finalizado o brefing, fomos jantar. Uns colegas preferem dormir sem jantar, outros jantam antes do briefing. Eu, particularmente, acredito que o brefing vai até o final do jantar. Em qual o momento você vai conseguir reunir mais de 20 ciclistas malucos e ficar escutando um monte de “mentiras” ehheh? O jantar também é um momento social do Audax e, você desfrutar de ótima companhia durante esses minutos NÃO TEM PREÇO, pro resto tem Mastercard/Visa.

A PRIMEIRA PIADA DO AUDAX FARRAPOS MIL
Antes mesmo do jantar veio a primeira parte cômica do Audax. Teve um colega da cidade de Caxias do Sul, que utilizava um chapéu de russo, que não posso escrever o nome, pois me dou com o cara uma barbaridade, e que também não foi o Pexe, que ao sair do briefing, louco de fome, visualizou um veículo de marca Crysler, modelo 300 (era quase o carro do Batman), de portas abertas defronte a portaria do hotel. O nobre colega, pensando só no seu íntimo (na fome é claro), não imaginou que os seus pobres amigos ciclistas não tivessem dinheiro suficiente para adquirir um veículo daquele porte (coisinha barata, deve custar algo entre 150-180 mil reais) e, foi se abancando no assento traseiro. Ao sentar ao lado do primeiro executivo, ouve aquele olhar 43 em direção ao “maluco” do chapéu russo e um casado similar e, na seqüência sentou-se o outro cavalheiro ao seu lado. Fecharam-se as portas e ouve aquele silêncio momentâneo (na verdade deve ter durado um século ehehhehe).
Um dos executivos pergunta? “O Senhor também joga tênis?”
O ciclista responde, já pulando por cima do cidadão a procura da maçaneta da porta e tentando fugir do local o mais rápido possível: “Não, eu ando de bicicleta....com licença...boa noite senhores...”.

A PROVA
Primeiro dia: 30/07 o dia do meu aniversário (420 km)
São 02:45 h quando toca o despertador e eu achando que era alguém querendo me parabenizar pelo aniversário eheheh. Desço para o café com a bike. Ao pisar no segundo degrau vem o escorregão da sapatilha de speed e só não vira tragédia porque me apoio na bike (na verdade acho que caí por cima da bike e devo ter encostado na parede). Quase não tem ninguém tomando café....que gente mais apressada para pedalar, hein?
Já são 03:25 h e alguém avisa que falta cinco minutos (as provas do Dublê de empresário começam em horário britânico). Saí do hotel e fomos orientados a nos deslocar até o posto de combustível ao lado do hotel devido ao barulho provocado pelos candidatos a esfarrapados. Antes da largada, me posiciono ao lado de uma das melhores companhias do brevet, o meu amigo Erich. O diretor da prova (Miguel Lawisch, o homi que foi pedalando do Brasil até os EUA e enfrentou temperaturas de -15 oC) estava preocupado e perguntando sobre o paradeiro da “guria da bike”. Cadê a Érika? Ninguém havia visto a guria. Passam-se alguns minutos e como todos já haviam partido, deduzimos que a guria também já havia “queimado o chão”. Saímos no nosso ritmo ao encalço da turma e já nos primeiros 4 km “passamos” pelo Udo (o homi tava parado colocando mais um par de luvas). Aqui vai uma explicação: O Udo é um ciclista ímpar lá nos pagos do Rio Grande. É impossível comparar com qualquer outro mortal. O Udo já pedalou um brevet de 400 com um guarda-chuva, aliás foram 720 km de brevet, já que ele foi de Vera Cruz até Eldorado (160 km) de bike e, lógico, depois voltou pedalando; já pedalou 24 mil km em um ano (esse ano ele quer fazer 27 mil); entre outra façanhas. O fiel companheiro e discípulo do Udo, o Bughera foi batizado indo a primeira prova de bike (de Vera Cruz a Ijuí). Bueno, a história do Udo é outra Estória. Na seqüência ultrapassamos, o Mogens, o Lazary, a Lidiane (a guria da bike bonita pra caramba: uma Scott P5 híbrida) e a Gabi. Ao passarmos pro cima de uns tachões/tartarugas veio primeiro problema: o suporte com as caramanholas/garrafas d`água da bike do Erich, presas na parte traseira do selim, simplesmente quebrou e as garrafas voaram ao chão. Todo mundo nos ultrapassou e ficamos alguns minutos parados enquanto o Erich colocava uma das garrafas dentro do alforje preso ao quadro e a outra sob o corta vento.
Nisso chega a “guria da bike”/ Érika Fernandes Pinto. Seguimos os três e logo a guria ficou pra trás. Dentro da praça de pedágio aconteceu o segundo imprevisto: o meu celular simplesmente voou de dentro do alforje para o chão da praça de pedágio. E olha que ninguém havia ligado eheehe. A Érika nos alcançou novamente. Partimos em direção a Pantano Grande e na primeira subida a guria fica pra trás de novo e avisa que podíamos seguir, haja vista que já não éramos mais os últimos (já tínhamos passado o Mogens e Lazary, a Lidi e Gabi). Perguntei ao Erich se havia necessidade de pararmos em Pantano e me convenceu que sim (ele iria parar e eu não queria pedalar sozinho).
Chegamos no PA da Raabelândia (km 50) e avistei o Guru Osvaldo que se queixou do frio.. Ao entrarmos na lancheria o Erich fez questão de tirar uma foto, pois havia acumulado geada sobre a minha balaclava. Café básico (copão de suco de laranja+dois de chocolate quente) na companhia do Mogens, Lazary e Érika. Peço mais um chocolate quente pra viagem que foi cuidadosamente acondicionado dentro do camelbak caseiro e posto dentro do bolso da camisa.
Na subida após a Raabelândia conheci o Edson (que quer vender uma bike Scott híbrida) e fomos rodando os três (eu, Erich e Edson) até o PC do posto Frank. Lógico, como qualquer randoneiro que se preste, paramos em alguns pontos para tirar fotos.
Chegamos no PC do Posto Frank/Encruzilhada (96 km) “almoçamos” às 08:15 h da manhã: macarrão + molho branco + 2 copos de chocolate quente.
Partimos para Canguçu. Como as luvas de plásticos que eu usava sobre a luva grossa haviam rasgado, descartei na lixeira do posto e na primeira descida, o frio estava tão grande, que os dedos ardiam de frio. Depois do brevet eu fiquei sabendo o motivo: a temperatura mais baixa foi justamente em Encruzilhada (-1 oC e a sensação térmica andando de bike de -15 oC, dados e cálculo da Organização do Brevet). Paramos e coloquei a luva alternativa: duas sacolas plásticas sobre as luvas. Problema resolvido e partimos. Paramos algumas vezes para reabastecimento hídrico do Erich. No início da descida do Abranjo veio uma das partes mais bacanas do Audax Farrapos MIL: O Erich fez uma entrevista sobre o audax e filmou toda a minha descida pelo “coxilhão Abranjo”. Até o Pexe que gosta de velocidade iria gostar de ver o filme (ver filmagem em outras fotos do Erich Brack).
Paramos para tomar uma coca-cola no Bar e Armazém do Neto (buteco antes da ponte do Rio Canguçu). As duas garrafas ingeridas estavam com gosto de Pepsi (bebemos coca-cola vencida). Tiramos umas fotos e ao saímos para o asfalto chega a guria da bike. Questionei se gostaria que a esperássemos e ela insistiu que não, pois estava rodando muito devagar com a nova bike (speed). Seguimos rumo a Canguçu. A conversa foi rolando e comentei com o Erich que nos 400km, quando estava rodando junto com a Érika, o Pexe havia nos passado no sentido inverso (voltando para Santa Cruz) na subida da Coxilha do Fogo (e bota fogo nisso...foi uma fogueira subir). Passou-se alguns instantes e o Pexe passa no outro lado da pista, quase no mesmo local dos 400 km. Foram mais uns 20 minutos e passa mais uns 3 ou 4 loucos. Um deles, inconfundível, o Graxa. Depois fiquei sabendo que esse havia desistido só pra ser voluntário, e que voluntário prestativo, leva até café no quarto. Naquela altura o joelho direito começou a incomodar. Pô, foram só 180-190 km e o joelho reclamando? Ainda falta uns 820 km...
Antes do PC1 de Canguçu passaram no sentido oposto toda a gurizada: Faccin, RogerBan, Osvaldo e mais um lote que eu não reconheci. Chegamos, e fomos direto ao rango, ou melhor, ao que sobrou já que eram umas 15:11 horas. Quando estávamos finalizando chegou a Érika que não quis voltar conosco.
Partimos às 16:15 h rumo a Encruzilhada. Andamos uns dois km e o Erich reclamou do joelho e da altura do Selim. Paramos para ajustar a altura. Rodamos uns 200 m e ele me falou: O teu selim também está baixo. E respondi que era pouco provável, pois havia feito o bikefit em Brasília. Ele insistiu. Elevamos em um centímetro o selim. Rodamos mais uns 2 km e a dor no meu joelho sumira e, a do Erich também. Paramos novamente no buteco da coca-cola vencida. Duas cocas e partimos para enfrentar a subida do Abranjo. Passamos pelo Dacivaldo no meio da subida. Ao finalizar, paramos no lado esquerdo da pista (antigo PC dos 400 km) para aproveitar a ótima companhia do Miguel e na seqüência do Lazary e degustar um super café + chocolate quente. Fomos ao encalço do Dacivaldo que não havia parado no café 0800. Encostamos no Dacivaldo e logo em seguida paramos na varanda de uma casa iluminada para comermos algumas castanhas/amêndoas e barras de cereais, pois as reservas estavam baixas.
Chegamos em Encruzilhada e para nossa surpresa a janta era a mesma do café. Que falta de criatividade do cozinheiro. Seguimos até Pantano Grande/Raabelândia em pelote (Lazary, Dacivaldo, Erich e eu). Comemos alguma coisa e mais chocolate quente. Chegamos ao hotel em Santa Cruz (km 420) às 04:34h. Tínhamos a estratégia de dormir 3,5 horas e partir às 08:30 horas, em ponto.
Segundo dia: 31/07/2009 a volta na quadra (+225 km)
Ainda na portaria, de papo com o Miguel, tenho que atender o segundo celular do diretor da prova e sou informado pela Rosane (a primeira mulher a pedalar um brevet de 600km no Brasil) , eufórica, de que o Capitão Farrapo Faccin acabara de passar por Candelária.
Combinado é combinado, eu e o Lazary partimos no horário marcado (08:30h). Na saída para Vera Cruz (defronte ao trevo do Vida Nova), por preguiça de desclipar e aguardar o momento de atravessar a pista, resolvo ficar fazendo “voltinhas”. Foi na segunda “voltinha” que me enrosquei na bike do Lazary e o tombo clipado ocorreu. Se não fosse o Lazary, estaria enroscado e preso na bike até agora. Passamos por Vera Cruz e o Lazary começa a arrancar a roupa de calor. Eu permaneço com a minha (sorte...depois ficou frio pra caramba). Antes de Candelária o Erich nos alcançou. Ao passarmos pelo pedágio a Rosane está aos berros gritando: “Vai Mil, Vai Mil”. Emoção pura...deu até mais vontade de pedalar.
Ao chegarmos em Cabrais (km 480) encontramos o Guru Osvaldo todo embrulhado em um cobertor, tremendo de frio. Só descobri que era o Osvaldo pois as bikes tinham placas personalizadas. “No embrulho, só se via os olhos”. O amigo estava “malecho”, estava com um princípio de hipotermia. Como era apenas 11:20 h da manhã tomei um café básico: três pastéis e dois chocolates quentes. O Lazary e o Dacivaldo, que chegou logo em seguida, resolveram almoçar comida de verdade. Partimos lá pelo meio dia. O Osvaldão nos afirmou que já estava melhor e que iria esperar mais um pouco. Antes de Cachoeira do Sul fui informado do da primeira notícia ruim: O próprio Erich informou-me que iria desistir devido a problemas/complicações de saúde.
Segui firme com o Lazary. Ao passar pela cidade de Cachoeira eu vejo um muro com a pintura: “Inter, campeão de tudo” (menos da segundona, é claro). Aí, não me contive e perguntei ao amigo Luis Roberto apontando o muro: Lazary, você tem bom gosto pra futebol? E ele me respondeu: claro. Agora, Jonas, pergunte-me por que eu sou colorado. Lazary, porque tu és colorado? POR QUE O MEU PAI TAMBÉM FOI. Ai eu arrepiei.
Passamos a ponte do Fandango (não é o salgadinho, é a ponte de Cachoeira do Sul sobre o Rio Jacuí) e pararmos logo após para comer uma fruta. O Dacivaldo chega reclamando do pavimento, do vendo, da fome....Seguimos nós três e fomos ultrapassados pelo Udo e pelo Bughera. O Bughera rodou comigo até o PC3 Posto Papagaio (km 544) e chegamos às 15:39 horas. Fui almoçar e peguei, literalmente, as sobras do almoço. Depois do almoço ao pegar a bike, vejo o Isac/Caxias/jogador de tênis, digo ciclista e ao mesmo tempo escuto uma moça perguntar: “A Érika já chegou?” Eu que estava ao lado respondi: Olha, ela deve estar a uns 10-15 minutos daqui. Ela vinha logo atrás da gente. Você a conhece da onde? E ela respondeu: Eu sou a mãe dela.....
Ah.....muito prazer, Jonas. E, meio encabulado com a situação até meio cômica, partimos pela BR 290 rumo a Pantano Grande/Rabelândia (eu, Lazary e o jogador de Tênis).
Não pegamos vento contra (claro, pegamos todo o vendo lateral antes de chegar ao Posto Papagaio). No caminho o jogador de tênis/Isac insistia em andar na nossa frente. Paramos na Raabelândia e o Miguel nos informou da desistência do Osvaldo e Érika. Partimos para Santa Cruz.
Chegamos ao hotel (km 646) às 22:34h e optamos pelo plano B (dormir 3 horas em Santa Cruz e não dormir em Encantado). Banho, cama e café....não necessariamente nesta ordem.

Terceiro dia: 01/08/2009 Encantado e General Câmara (faltam + 380 km)
Se fossemos dormir em Encantado (plano A) chegaríamos no amanhecer do dia e ultra detonados. Partimos de Santa Cruz pontualmente 01:30, lógico, os atrasados ficaram pra trás.
Lá pelas 03:00, uns 30 km rodados (pista só pra ciclistas, rodamos bem no meio ehehee), só tinha o barulho das bike, o meu e o do Lazary, surge o Pexe do nada, atravessando a pista em nosso sentido. Tomei um baita de um cagaço...achei que era um a moto, por pouco não me jogo no barranco. Acho que o Pexe até desligou os faróis para gente não perceber a aproximação.
Lá por Venâncio somos alcançados pelo Isac e Dacivaldo. Seguimos firme até surgir dois problemas: o primeiro foi um “esperto/malandro/playboy/FDP” em um escort que ao ver os ciclistas no sentido oposto da via, atravessou a pista na conta-mão e jogou o carro em cima do ciclista Dacivaldo e logo após (mais atrás) vez o mesmo com o Isac. Eu e o Lazary tínhamos parado (para tomar umas boletas, digo guaraná em pó) e não vimos nada. Passado o susto veio o segundo: o sono começou a me dominar. Paramos no posto do Pedágio e dormimos 30 minutos no sofá mais confortável do mundo. Seguimos para Encantado rejuvenescidos e chegamos lá acabados (km 742) lá pelas 08:15h. Antes paramos no pedágio para tomar um café na conta do Udo e do Bughera, que já estavam voltando e, gentilmente pagaram o café. Um pouco antes de chegarmos em Encantado vimos alguns malucos voltando, entre eles o idealizador do evento/Capitão Farrapo e Dublê de empresário Luiz M. Faccin.
Ao chegar no hotel/PC5 encontramos “o ninja”/RogerBan em processo de partida. Tomamos uma super sopa de capeleti e pra variar um copão de chocolate quente e pé na estrada, pois ainda faltavam mais 290 km. Saindo da cidade e avistamos o “buzina”, Lidiane e o “Viking”/Mogens. Todos sorridentes.
Antes de chegar ao pedágio passamos pelo Ban (o Roger ele já havia perdido, com certeza) lutando com um pneu furado. Como ele já havia antecipado que não iria aceitar ajuda (estava treinando para o Endless Mountain/USA) nem oferecemos eheehh. Paramos no café pedágio e ficamos aguardando. O homi chegou, tomou o café e nem deu tchau....”se foi a lá cria”. Bueno, o homi tava tão mal, mas tão mal que uns 30-40 minutos depois o alcançamos antes ainda de Venâncio. Em um trevo antes de Venâncio encontramos o Kieling e o convidamos para almoçar no restaurante Casa Cheia.
Em Venâncio Aires, sofremos um atentado, desta vez provocado por um imbecil sentado atrás de um volante do ônibus número 1330 da Empresa Hélios, entre o km 5,5 e 6,0 da BR 453, no horário entre 12:30-12:45 h. O asno estava para entrar na rodovia, deixou os dois ciclistas (eu e Ban) passar do outro lado no acostamento e ao atravessar a rodovia fez questão de invadir o acostamento, jogando o ônibus sobre nós e entrando a direita uns 100 m a frente. Adivinhem o que a “autoridade” Estadual de Trânsito me disse quando fui narrar o fato e pedir orientação sobre o que eu poderia fazer? “ O senhor deveria ter feito uma ocorrência no dia do ocorrido. Agora não tem mais ao que fazer...” Dá pra acreditar nisso?
Chegamos ao restaurante Casa Cheia (que por sinal vive vazio) e fomos almoçar no restaurante anexo ao posto de combustível (BBBR: bom, bonito, barato e rápido). Tivemos o prazer de desfrutar da companhia do Henrique e Daniel (PC 5), Kieling, Miguel e Victor Matzembacher (ex-farrapo que “morreu” peliando no campo de batalha). Após o almoço passa o “buzina” e Lidiane. Fomos ao encalço e não os encontramos. Na subida das sete curvas passa um abusado com uma bike híbrida (é quase um empresário) gritando para aproveitarmos o máximo a subida que na volta estaria escuro ehehehe. Chegamos ao hotel PC6 (839 km) às 14:40h. Para nossa surpresa e alegria lá estava o nosso Guru Osvaldo (que fez uma super lubrificação na corrente da bike – obrigado Osvaldo) e o Graxa (este desistiu do brevet só pra ficar ajudando). Combinamos de partir para General Câmara às 15:30h. Banho e roupa seca. O Ban atrasou e ficou...partimos eu e Lazary também atrasados às 15:45h. Tomamos um café num posto de combustível e o Dacivaldo me pede uma cerveja...vê se isso é hora de tomar cerveja, tchê? Ainda faltavam uns 160 km de muito pedal. E ele me oferece...Queres um gole? É sem álcool. Quase que respondo: Sou homi, tchê. Tomo Cerveja com álcool hehehe. Nesse meio tempo passam por nós o “buzina” e a Lidiane. Nunca mais os vimos (só na premiação).
Antes de chegar ao PA do pesque-pague o meu joelho começou a incomodar e muito...o ritmo que já não era dos melhores e ficou pior. Chegamos ao pesque-pague, comemos o super macarrão e seguimos para General Câmara.
Chegamos ao PCC7 (posto controle do CAMINHÃO 7) às 21:26h (km 928) deu até vontade de dormir. Tinha um caminhão baú adaptado para receber ciclistas e, se fosse necessário, tirar um cochilo com dignidade (tinha beliche). O melhor de tudo foi encontrar o Rolf, Guilherme e Lisiane na maior alegria e paciência para agüentar os chatos/catatônicos que vinham chegando de bike. Tomei uma sopão, comi umas 3 fatias de pão caseiro, contei uns causos e tomei um café que era quase um petróleo de tão forte (Guilherme, só fui dormir dois dias depois eheheh). Saímos do PCC7 às 23:00h e começou a chover. Faltavam 89 km. Passamos pelo Isac, Ban e Mogens. A chuva estava fria.

Quarto dia: 02/08/2009 - General Câmara a Santa Cruz (faltam + 89 km)
A chuva era suave e fria. Chegamos ao pesque pague. O Miguel informou que se houvesse algum desistente não haveria mais carro e deveria voltar pedalando. Baita incentivo, hein?
Comemos um sanduíche e botamos o pedal no caminho. A chuva começou a engrossar e parece que ficou mais fria. Como eu fazia parte do time da Scott (jaqueta laranja) não tive problemas de baixas temperaturas e nem de umidade no tórax. Em compensação as pernas....com o frio a dor do joelho sumiu e eu sumi na frente do Lazary. Lá em Vale Verde eu parei para aliviar a bexiga e o Lazary chegou. Partimos para vender a “subidinha” do Vale Verde. Na metade da subida eu comentei com o meu amigo Lazary da incompetência do engenheiro responsável pela estrada em não aplainar a pista. Existe tanto lugar precisando de aterro e aqui nesta subida maldita está sobrando terra. Custava unir o útil ao agradável?
Chegamos em Passo do Sobrado, naquela estrada esburacada e sem pintura e, pra piorar a chuva parecia que tinha ficado mais fria ainda. Nas pernas o frio era grande. Finalmente chegamos a pista principal. Passamos defronte a lancheria Shuster (1000 km). Só faltava mais 17 km...os piores 17 km da minha vida. O frio estava muito forte nas pernas e o ritmo estava muito baixo. A sorte que não podíamos ver o odometro (até podíamos, era só ligar a lanterna da cabeça, mas melhor nem olhar). Devo ter vencido as sete curvas a uns 8-10 km/h. Começa a descida na outra ponta...desço freando só pra garantir a chegada inteiro. Entramos na cidade. Iluminação urbana e o frio desaparece. Deve ser o calor da chegada....
Chegamos ao hotel (1.017 km) às 04:21 horas. Pose para fotos e subo batendo queixo, perna, sapatilha. A bike ficou...acho que alguém guardou.
A intenção era tomar banho com roupa e tudo. Ligo o chuveiro e escuto as batidas na porta: toc, toc, toc. Abro e a surpresa: O graxa e a guria da bike vieram me cumprimentar. E me perguntam: Tu queres alguma coisa? Sim, respondo. Quero suas duas. Qualquer coisa pra comer e algo, não alcoólico e quente para tomar, preferencialmente em 10 minutos que é o tempo pra eu tomar banho. E veio?
Claro que veio. Já estava debaixo de uns 3 cobertores, tentando me aquecer, meio dormindo, quando fui “meio acordado” e escutei: Tá aqui “galo veio”, o teu pedido. Comi, bebi e desci para cumprimentar os dois últimos esfarrapados que estavam chegando: Ban e Mogens. Quanto a premiação? Isso é outro causo.
Vou fazer uma pequena explicação quanto ao termo gaudério “galo veio” que foi muito utilizado pelo colega Graxa. Diz a lenda que existia um galo pra lá de “véio” no galinheiro. Ninguém sabia explicar o motivo que o fazendeiro ainda não havia enviado o tal de “galo véio” pra panela. Ai apareceu um galo “novo” todo metido a galã e o abestalhado tinha que ir contar vantagem para o “galo véio”. O galo véio ficou escutando, na maior paciência e calma até que o galo novo provocou: vamos fazer uma corrida? Não posso, sou muito velho...Te dou uma vantagem de 3 metros. Aceito. Feito o acordo, partiram em disparada pelo galinheiro. Quando o fazendeiro viu a cena, sacou do 30 (na verdade .38) e sapecou chumbo quente no galo que vinha atrás (o galo novo). E gritou: “Não suporto ver uma galo todo musculoso, novo e frouxo perder uma corrida pra um galo “véio” deste jeito...” Moral da história: experiência e sabedoria valem muito.....
E a bike? Não treinei com ela, mas que pedalei os 400; 600 e 1.017 km com a melhor bike do mundo (Scott Sportster = híbrida) e, todo o “time Scott Sportster” finalizou o Brevet Farrapos MIL (Faccin, Lidiane e eu), ou seja, 100% de aproveitamento ehheeh.

E foi assim que um cidadão que usava a bicicleta somente para ir à padaria da esquina conseguiu fechar uma séria até 1.000 km na primeira tentativa.

E qual foi o resultado final:
Perdi duas unhas dos pés (dedões), três dedos das mãos estão lesionados (sem sensibilidade, com pouca movimentação e dormentes) causados pela trepidação, acumulei algumas rusgas familiares, mas fiz novas amizades e tenho ótimas lembranças das provas e dos amigos.
Muito obrigado a todos que participaram: organização, voluntários, ciclistas e torcedores e/ou incentivadores, aos que foram citados no relato ou aqueles que por algum motivo não citei.

Saudações Esfarrapadas a todos e que venha o PBP de 2011.
Jonas Ruschel

terça-feira, 18 de agosto de 2009

Relato Farrapos 1000 km- Saul

Somente ontem á tarde (04-08), quase três dias depois de concluído o BREVET FARRAPOS 1000 consegui caminhar com menos dificuldade, devido aos dois tornozelos inchados, bem como o joelho direito.

Sempre gostei de ler e acompanhar os relatos dos colegas AUDAXIOSOS das diversas provas realizadas. Até não me importo se o tamanho é extenso, ao contrário, a curiosidade aumenta a cada linha.

Também nunca fui capaz de colocar um misero relatinho dentre os diversos breves que participei, mas desta vez não posso deixar passar no anonimato, preciso, não por mim, mas em respeito a todos que participaram destes 1000 KM pedalando e organizando este inesquecível, apocalíptico (dá-lhe Rogerban) e emocionante Brevet!!!

Irei dividir em quatro etapas (assim como a prova) meu relato, para não se tornar cansativo (não tanto quanto 1000 km, com certeza).

Faço Audax desde 2005; segundo ano das provas aqui no estado e se não estou enganado, também no Brasil. É bem verdade que em 2006 e 2007 não participei de nenhuma prova, por diversos motivos, mas nunca deixei de acompanhar a realização das mesmas.
No ano passado fiz o 200 de Lajeado (grande Kieling) e o 300 de Santa Cruz (mestre Faccin).

Este ano já havia decidido fazer toda a série, ainda mais com um Brevet inédito de 1000 km.
Tudo começou com o 200 de Porto Alegre.
Logo após o de Lajeado; 300 em Caxias; 400 e 600 em Santa Cruz.

Creio que não importa muito a quantidade de provas feitas em uma mesma série, mas sim a qualidade e evolução natural conquistadas em cada uma delas, por isso a opção que tenho de apenas um brevet em cada distância (a exceção deste ano foi os 200 de Porto Alegre), sem falar na questão financeira.

Em 2005 completei a série pedalando uma MTB GTS (será que alguém se lembra?). Migrei para uma speed Vicini e tinha expectativa de concluir todas as provas com ela. Apesar de menos confortável, o rendimento do pedal é muito tentador e quando se está bem adaptado à bike, realmente vale a pena.

Bem, chega de enrolação e vamos ao que realmente interessa: o Brevet Farrapos.

A primeira etapa foi bastante intensa, com certeza a temperatura estava negativa logo ao passar pela 290 em direção a Encruzilhada e as subidas nestas condições mantinham o corpo aquecido, fazendo com que as paradas fossem somente para o estritamente necessário (no meu caso apenas para tirar uma "água do joelho"), momento em que o Isac caiu ao bater na roda traseira não me recordo de quem.

Nada de grave aconteceu e seguimos vendo os primeiros raios de sol no horizonte, uma dessas imagens que te dá força e inspiração para seguir em frente. Por volta das 07h20min cheguei no Posto BR que era o PC1 na prova de 400 km, neste caso meu primeiro PA.
A alimentação e hidratação não poderiam ser subestimadas neste momento, pois mais de 100 km com poucos pontos de apoio nos esperava pela frente. Sempre tento ser o mais auto-suficiente possível, por isso levo em minha bagagem muitos itens, dentre eles comida. Poderia pedalar mais leve? Sim, mas não abro mão da segurança de levar comigo tudo que julgo possa ser útil e neste percurso "desértico" isto ajuda muito.

Parti deste PA por volta das 07h50min, sentido mais frio do que no momento da largada, já que geralmente é nesse horário que se registram as menores temperaturas do dia.
Poucos km a frente o visual era de tirar o fôlego (além das subidas). Uma fina camada de gelo cobria os campos fazendo-se entender o verdadeiro significado da palavra GEADA, simplesmente um espetáculo da natureza servindo de combustível e estimulando seguir em frente.

As horas foram passando, os km avançando e o dia naturalmente aquecendo vagarosamente. Logo após a descida da serra fiz minha única parada neste trajeto, novamente para tirar aquela "água do joelho".
De repente, uns 15 ou 10 km antes da BR 392 começo a sentir um forte cheiro parecido com o que sentimos nos arredores de um mercado público em época de semana santa.
Isso mesmo, era o Pexe, subindo e girando sem parar.

Seguimos juntos com um leve vento contra na 392 até o Posto Fita Azul, local do primeiro PC. Chegamos ás 12h12min e disse ao Pexe que pretendia parar no mínimo durante uma hora, pois sabia que suas paradas são meteóricas e que não precisaria me esperar, pois ainda tinha de almoçar e aplicar a famosa e milagrosa pomada hipoglós no "popo" e protetor solar (este no rosto mesmo).

Feito isto, voltei á estrada ás 13h13min, conforme o planejado e agora com o vento á favor, pelo menos até a saída da BR.
Ando alguns km e quem se esborracha novamente no asfalto?
Ele mesmo, o Isac, caindo pela segunda vez no dia.
Atravessei a rodovia e perguntei como ele estava. Disse-me que estava bem. Insisti pra ter certeza, daí ele parecia mais preocupado com o "mico" de ter caído daquela forma do que com a queda em si.
Realmente não era nada grave e por sorte não passava nem um de nossos "amigos caminhoneiros" naquele momento. Logo em seguida o Rogerban passou na mesma direção e também parou para ajudar.

O pedal continuava rendendo bem, até o sono e aquela bobeira característica pós-almoço me pegarem de surpresa. O sono devia ser pelas poucas horas de sono da "meia" noite anterior.
Tive de parar mais vezes pra jogar aquela água no rosto e me alimentar, até que finalmente estava de novo de volta á serra, daí não há sono que insista em prosseguir.

Neste momento senti o peso extra de minhas bagagens na íngreme subida. Isto combinado ao meu pedivela 53x39, dificultavam bastante e aumentavam o esforço.
Com certeza isto contribuiu para as fortes dores que viria a sentir no decorrer da prova.
O entardecer chegou rapidamente e com ele novamente o frio, antes mesmo da noite.
Uma nova parada no PA de Encruzilhada era estratégica, e por volta de 17h45min senti de novo aquele cheirinho ao chegar no posto.
De novo ele, o Pexe estava "atracado" em um prato de massa, recuperando as energias.
Claro que pouco tempo após minha chegada ele já estava saindo.

Novo reforço de pomada na buzanfa, dois copos de café com leite e demais guloseimas calóricas para enfrentar os últimos 90 e poucos km da etapa do primeiro dia e ás 18h30min voltei para a estrada. O bom desta parte é que recuperamos tudo o que havíamos subido na parte da manhã, pois as descidas prevalecem até o trevo de Pântano Grande.
Incrivelmente foi calmo à volta para Santa Cruz após o trevo, apesar do inexistente acostamento, o pouco tráfego de veículos facilitou o retorno.
Cheguei no hotel ás 22:31, cansado mas feliz por poder descansar finalmente desta primeira etapa.

Subi para o quarto, tomei aquele renovador banho, preparei minha janta e arrumei tudo para o dia seguinte. Já passava de 01h quando finalmente "desmaiei" para o merecido e essencial descanso!!!

Números da Primeira Etapa: Canguçu

PC 1 – Posto Fitazul
Hora Chegada - 12:12
Hora Saída - 13:13
ODO – 210,910 km
Velocidade Média – 26,28
Velocidade Máxima – 60,22
Cadência Média – 79
Tempo de Pedal – 08 h 01 m
Tempo de Prova – 08 h 42 m

PC 2 – Hotel Antonios
Hora Chegada – 22:31
ODO – 422,280 km
Velocidade Média – 25,78
Velocidade Máxima – 60,82
Cadência Média – 76
Tempo de Pedal – 16 h 22 m
Tempo de Prova – 19 h 01 m

SEGUNDA ETAPA: VOLTA NA QUADRA

O celular desperta: 5:00 h da manhã é o horário. As poucas, porém merecidas e revigorantes menos de 4 horas de sono pedem apenas mais alguns minutos de descanso.
Mas a cabeça já está na estrada, para mais uma etapa: a VOLTA NA QUADRA!!!
Procuro não pensar muito, apenas me levanto rapidamente da cama e desço para o café.
Encontro, completando a etapa de Canguçu e repondo as energias, o Erich e o Dacivaldo. Detalhe para a camisa do Erich, do PBP (alguém precisa de visão mais otimista para seguir pedalando; além é claro de ver os amigos concluindo uma difícil etapa da prova).

Conversamos não me lembro o quê enquanto tomávamos o café e logo descia eu do quarto para mais uma jornada. Do nada apareceu o Faccin, também despertando para mais um dia. Lembro-me de dizer pra ele que começava a sentir o joelho. Com todo experiência em longa distância que possuí, me disse que deveria girar mais e forçar menos, algo que pode parecer óbvio, mas que realmente faz muita diferença e deve ser levado muito á sério e aplicado, como realmente tentei colocar em prática.

Digo que tentei, pois também havia as assaduras, que já incomodavam um pouco e quanto mais se gira, mais se assa. O diclofenaco a partir desde momento também passou a ser item obrigatório na bagagem.
Eram 06h10min quando da partida para mais uma fria manhã e 220 e poucos km em uma "voltinha na quadra". Com certeza este era o trajeto, ao menos em minha opinião, de maior tensão de toda a empreitada, por diversos motivos (movimento grande e péssimo acostamento em várias partes, possibilidade de vento na BR 290 [que se confirmou], segunda maior distância, cansaço acumulado... )

Rapidamente o dia amanheceu e com ele uma companheira indesejável, porém dificilmente inevitável e oculta: a dor. Até que ponto somos capazes de suportá-la?
Cada um tem seu grau de percepção e tolerância para diferentes intensidades de um mesmo mal, além do fator psicológico, que pode ser desicivo em momentos delicados e de superação.

Apenas segui em frente, pensando que o melhor seria tentar respeitar todas as reações e sinais que nosso corpo emite, com muita força de vontade e espírito guerreiro, como um verdadeiro Farrapo no campo de batalha, com sangue correndo apenas nas veias, impulsionando metro após metro e materializando um final de superação.

Depois de uns 45 km encontro "o casal barriga verde" de Criciúma, Maico e Rogério (perco o amigo mas não perco a piada, hehehehe). Muito legal o companheirismo desta dupla, pois sempre fazem junto o Audax. Admiro isto porque acho difícil andar sempre no mesmo ritmo durante longos trechos, mas eles ao contrário, ou como muitos, estão do inicio ao fim da prova juntos.

Logo veio o acesso á Cachoeira do Sul, e embora a obra de recapagem do asfalto por alguns km, foi à parte mais calma e tranqüila da volta na quadra. Ao passar a barragem do Fandango, após o centro de Cachoeira, o vento lateral se intensificou e era uma pequena amostra das dificuldades que me esperavam na BR 290, combinado com motoristas raivosos e maldosamente mal educados, sedentos em passar a poucos centímetros da bicicleta.

A chegada no Posto Papagaio deu-se ás 11h23min e a fome também pedia passagem, sendo facilmente dominada com o bom e velho café com leite, pastel e croquete de carne mais o que havia em minha mochila e bolsa de guidão.
O papo rendeu com o responsável por este PC, (não lembro o nome dele, mas estava com uma jaqueta do flamengo e era muito gente boa, deixo aqui meu abraço, mesmo ele tentando me tirar da prova, pois no momento de assinar meu passaporte o mesmo voou de sua mão para baixo do carro. Ainda bem que conseguimos resgatá-lo).
Quando voltei para a estrada já passava do meio-dia, mais precisamente 12h10min.
Minha companheira oculta ainda se fazia presente, a esta altura do dia de forma mais controlada, acho que estava me acostumando com ela; devia ser o efeito do diclofenaco e a vontade em continuar, mesmo com o outro inimigo invisível e não menos difícil, o vento totalmente contra.

Nesta parte as longas retas predominam durante 50 km e o sobe e desce constante acabaram ajudando a vencer o vento no rosto. Até esperava maior dificuldade, afinal vento contra é até pior do que muitas subidas. Não pense que foi barbada, pois foram mais de 2h e meia até o Posto Raabelândia (PA) mais uma parada obrigatória para hidratação e alimentação.

Feito isto, restavam apenas 50 km para Santa Cruz, estressantes 50 km.
Pode até ser repetitivo e chato ficar sempre relatando a conduta de nossos "amigos" motoristas, porém é extremamente desgastante dividir a atenção entre o ato de pedalar, os buracos da estrada, o péssimo (ás vezes inexistente acostamento) , caminhões, ônibus, carros, e todo tipo de veículo motorizado sem noção do que é andar de bicicleta e que por isso se acham no direito de brincar com nossa segurança das maneiras mais variadas e costumeiramente conhecidas por todos nós.

Lá pelo meio do caminho me passa o Miguel, anjo da guarda de todos os ciclistas na estrada e fora dela, sempre com seu jeito simples, humilde e cativante.
Paramos pra trocar uma idéia e logo após ele seguiu na direção de Pântano Grande, afinal estava fazendo por merecer o honroso cargo de Diretor de Prova, totalmente merecedor e justificado.

Chegando ao Hotel mais uma vez, PC 04, pontualmente ás 17h14min, quem eu encontro saindo para Encantando? Ele mesmo, o audaxioso "cheroso", Pexe.
Trocamos breves palavras e comentei de minhas dores nos tornozelos e joelho e para minha surpresa ele me disse que também estava sentindo o joelho.
Me recomendou o uso de um spray para dores e inflamações, o qual apenas deu tempo de carimbar meu passaporte e fui correndo, ou melhor, caminhando até a farmácia, já que até pra caminhar começava a ficar difícil, comprar o dito "mascarador de dor".

Na hora em que cheguei ao hotel estava o Graxa, (figura folclórica desde o inicio da modalidade aqui no estado desde o ano de 2004) como mais novo voluntário da prova, já que um problema em sua roda o impediu de continuar ainda no retorno da noite anterior, senão me engano entre Encruzilhada e Pântano.

Subi para o quarto e começou a correria. Antes disso, logo que sai do PC 03 no Posto Papagaio, vinha pensando em mudar minha estratégia que inicialmente era um tanto quanto ambiciosa para o dia de hoje. Se tudo ocorre-se perfeitamente a idéia era concluir as etapas 2 e 3 ainda neste segundo dia, nem que o retorno de Encantado ocorre-se de madrugada, ficando apenas a etapa de General Câmara para o sábado.
Porém, devido aos acontecimentos desta etapa, tinha a dúvida entre ficar descansando até o meio da próxima madrugada e tentar fazer as duas últimas etapas seguidas (seria bastante cansativo, pois deixar quase 400 km para pouco mais de 24 horas poderia ser extremamente desgastante) .
A segunda opção seria ir somente até Encantado e pernoitar no hotel do PC 05, dividindo assim as distâncias finais entre a sexta e o sábado, estratégia altamente recomendável e que acabou se revelando a decisão acertada.
Acompanhe no relato da terceira etapa, de Encantado, sabe-se lá quando...

Números da Segunda Etapa: Volta na Quadra

Data: 31-07-09
PC 3 – Posto Papagaio
Hora Chegada – 11:23
Hora Saída – 12:10
ODO – 547,140 km
Velocidade Média – 25,57
Velocidade Máxima – 60,82
Cadência Média – 76
Tempo de Pedal – 21 h 23 m
Tempo de Prova – 31 h 53 m

Data: 31-07-09
PC 4 – Hotel Antonios
Hora Chegada – 17:14
ODO – 649,590 km
Velocidade Média – 24,95
Velocidade Máxima – 60,82
Cadência Média – 75
Tempo de Pedal – 26 h 01 m
Tempo de Prova – 37 h 44 m

TERCEIRA ETAPA: ENCANTADO

Já no quarto do hotel, cozinhando mais uma vez meu macarrão, continuo com a
dúvida entre seguir para Encantado neste mesmo dia ou descansar um pouco (isso
inclui principalmente algumas horas de sono). A luz do dia recém começava
desaparecer no horizonte, dando lugar á uma noite de incertezas.

Porém eu sabia que mesmo com o cansaço acumulado do dia este não era o melhor
horário para descansar e dormir assim tão cedo seria uma eterna luta contra a
cama, pensamentos mil e a expectativa do restante do caminho.

Por tudo isso decidi partir neste mesmo dia para a terceira etapa, ENCANTADO.
Já alimentado e com tudo pronto na bicicleta, sai ás 19h25min para quase 100 km,
mais precisamente 96 km. Logo de inicio tive a certeza da decisão ter sido a
mais correta possível, já que o vento não mais se fazia presente deixando o
clima muito bom para pedalar, apenas atrapalhado pelo grande movimento na RSC
287 até o trevo de acesso á Venâncio Aires.

Rapidamente já ingressava na RSC 453 para comprovar o bom rendimento mesmo com
as inseparáveis dores. A noite estava perfeita (até demais), já que até mesmo o
frio havia amenizado bastante na comparação com o dia e noite anterior.

Tudo tem uma explicação e esta aparente calmaria climatológica não fugiu a
regra, pois lá pela metade do caminho, com cerca de uns 45 km, começou a
chuviscar, bem de leve e sem a necessidade de uma parada para proteger toda a
bagagem da bike.

Conforme fui me aproximando de Lajeado, o asfalto foi ficando cada vez mais
molhado, porém misteriosamente não se podia classificar aquilo como uma
verdadeira chuva, pois não passava de pingos espaçados apenas molhando de
verdade o asfalto.
Ainda assim aquela parada agora se fazia necessária, a menos que quisesse eu ver
tudo molhado em minha mochila.

Com toda a tralha devidamente empacotada (protegida) a cidade de Encantado
estava a cada minuto, ou a cada km, cada vez mais próxima. Após as 22:00 h o
movimento de veículos caiu consideravelmente, fazendo um silêncio ensurdecedor
prevalecer em meio ao leve sobe e desce e as diversas curvas até finalmente o
tão esperado hotel hengu.

Destaque para o Pexe, que cerca de uns 2 km antes do hotel já passava de volta
para Santa Cruz. Não paramos para conversar, foi tudo apenas no grito, no que
ele me pergunta: "Tu vai voltar ainda hoje?".

Respondi que não, obviamente, pois para o dia de hoje eu já estava por demais
satisfeito. Tudo o que precisava e pensava durante estes últimos km antes do
hotel eram um bom banho, uma cama quentinha e comida para recuperar as energias.
Cheguei pontualmente á meia-noite neste que, além de hotel, era o PC 5 e
rapidamente subi até o terceiro andar juntamente com minha companheira de
jornada, é claro.

Um banho quente, comida que trazia na mochila e cama.
Deitei a 01:00 h da manhã e ainda assim demorei um pouco pra pegar no sono,
cerca de 20 minutos. Acho que a "pedaloína" ainda agia nas veias, mas foi
preciso apenas um pouco de paciência para o cansaço predominar.

Acordei as 04h30min com o som característico do "toc toc" das sapatilhas no
chão. Apenas virei para o lado e em mais um breve cochilo o celular desperta ás
5:00 hs.
Não se pode pensar muito, apenas levantar rapidamente e descer para o café já
incluído na diária.
Ao descer encontro dormindo (cochilando é a melhor definição) o Udo e o Claiton.
Falei sobre alguma coisa com o Claiton enquanto tomava o café e ás 06h20min
peguei o caminho de volta a Santa Cruz do Sul.
O asfalto estava praticamente seco e a pouca chuva da noite anterior não mais se
fazia presente e nem parecia querer voltar, prenunciando um ótimo final de
Audax.

Logo começaram a aparecer os primeiros audaciosos no sentido contrário.
Segui num bom ritmo, já com o dia claro e logo estava na subida das sete curvas.
Lá pelo meio dela encontro o Cícero e seguimos num bom papo até o hotel Antonios
(PC 6) para mais uma etapa concluída.

No exato momento em que chegávamos ao hotel os catarinenses Maico e Rogério
iniciavam sua viagem de volta a Criciúma, infelizmente antes da hora.
Desta vez tinha até "equipe de apoio" na chegada.
Além do graxa, sempre prestativo (obrigado pelas pilhas do farol), o Osvaldo fez
questão de limpar e lubrificar a relação de minha bicicleta (sem palavras para
agradecer, a não ser um humilde muito obrigado).

Números da Terceira Etapa: Encantado

Data: 01-08-09
PC 5 – Hotel Hengu
Hora Chegada – 00:00
Hora Saída – 06:20
ODO – 745,270 km
Velocidade Média – 24,69
Velocidade Máxima – 60,82
Cadência Média – 74
Tempo de Pedal – 30 h 10 m
Tempo de Prova – 44 h 30 m

Data: 01-08-09
PC 6 – Hotel Antonios
Hora Chegada – 10:26
ODO – 840,940 km
Velocidade Média – 24,67
Velocidade Máxima – 61,43
Cadência Média – 74
Tempo de Pedal – 34 h 05 m
Tempo de Prova – 54 h 56 m

QUARTA ETAPA: GENERAL

O prenúncio de terminar o audax de 1000 km e aproveitar ao máximo possível o dia
para pedalar fez desta última passagem no hotel (PC 6) uma tentativa de ficar
parado o menor tempo possível.

Ainda assim, a saída em direção a última etapa, General Câmara, se deu apenas ás
11h50min. Sempre depois de uma parada estratégica, (como todas as paradas no
hotel antonios) o corpo reagi muito bem e a pedalada flui com vontade extra,
ainda mais com o pensamento sempre constante da chegada.

Tudo transcorria perfeitamente, até mesmo em relação ao clima, pois o frio dos
dois dias anteriores não mais se fazia presente com tamanha intensidade.

O mesmo não posso falar em relação a minha inseparável companheira, que logo
depois do trevo de acesso para Passo do Sobrado se manifestou de forma intensa
como até então nunca antes havia feito.

No odometro o acumulado já estava em 869 km e o ritmo caiu de forma assustadora.
Aquela "maravilhosa" subida do cerro da boa esperança se aproximava, mas eu
sabia que não devia parar, pois já estava aquecido e ao mesmo tempo que a dor me
incomodava, ma dava força pra seguir em frente.

E assim fui subindo, girando roda até o topo e depois a descida.
Cheguei até em pensar que naquele ritmo conseguiria apenas ir até o PC 7 durante
o dia, pois a idéia inicial era chegar neste PC e voltar até o Pesque e Pague
ainda durante o dia, restando apenas 62 km para a última noite.

Uma coisa é certa: "Não existe felicidade eterna e nem mal que dure para
sempre". E desta forma, ainda um pouco antes do Pesque e Pague Panorama,
recuperei a alegria em girar os pedais.
Pensei até em não parar, mas era impossível, a fome me consumia e um bom
alongamento também era necessário.

Eu chegava e o Pexe já estava saindo para os últimos 62 km.
Trocamos algumas palavras e logo ele se foi.
Ainda era cedo, cerca de 14h40min.
Percebi que minha idéia inicial poderia se tornar realidade, então logo já
retornei para a estrada em um belo dia de sol.

O que as duas últimas etapas tinham de estressantes em relação ao trânsito, esta
estrada tem de tranqüilidade, pois o tráfego de veículos é quase nulo.

Isto mostrou ser acertada a decisão de deixar esta parte como a última do
trajeto, diminuindo as chances de acidentes que ainda bem, não ocorreram.

Pontualmente ás 16:18 cheguei ao PC 7 e tive a honra de ser o primeiro (se não
estou enganado) a provar a sopa do Holf e do Guilherme, já que pelo que me
disseram o Pexe passou tão cedo que ela ainda não estava pronta.

Sem comentários a receptividade neste último PCC (posto de controle e caminhão)
A sopa então, deliciosa e por demais especial !!!
O papo estava bom mas ainda faltavam quase 90 km para a chegada e pouco mais de
uma hora da luz do dia.

Entre este PC e o Pesque e Pague vários audaxiosos passaram e tive a certeza de
que da mesma forma como havia sido muito difícil chegar até este ponto, também
era quase certa a chegada e conclusão do desafio tanto de minha parte como por
parte de todos que ali estavam.

Mais feliz cheguei ao Pesque e Pague, para saborear um belo prato de macarrão.
Não posso dizer que estava com fome, porém isto já era incluído no pacote e era
melhor estar bem alimentado e prevenir do que deixar a fome chegar.

Neste ponto as assaduras queimavam e o hipoglós foi a salvação (aliás, durante
todo o Audax).

Feita pela última vez a aplicação, já é noite quando os últimos 62 km abrem a
contagem regressiva para o fim deste primeiro Audax 1000.
Antes de chegar mais uma vez ao cerro da boa esperança, me aparece o Miguel,
sempre atencioso e na expectativa com a noite e madrugada deste último dia.

Vencida a subida, logo veio a descida e o cuidado com os buracos, que deste
ponto até o acesso á RSC 287 se fazem presente em grande número.

Quando lembro da imagem da movimentada RSC 287 se aproximando penso que somente
17 km estão faltando, mas a atenção deve ser mantida até o fim e um filme passa
na mente sobre estes três intensos dias.

A última subida (sete curvas), última descida (e que descida), entrada para
Santa Cruz e últimos 5 km.

Dor?

Que dor?

Anestesiado pela satisfação da chegada e uma mistura de sentimentos neste
singular momento em que 1000 palavras não seriam capazes de expressar o quanto
valeu cada minuto deste Audax.

Números da Quarta Etapa: General

Data: 01-08-09
PC 7 – Posto ABS
Hora Chegada – 16:18
Hora Saída – 16:45
ODO – 930,400 km
Velocidade Média – 24,44
Velocidade Máxima – 61,43
Cadência Média – 74
Tempo de Pedal – 38 h 03 m
Tempo de Prova – 60 h 48 m

Data: 01-08-09
CHEGADA – Hotel Antonios
Hora Chegada – 21:28
ODO – 1019,900 km
Velocidade Média – 24,28
Velocidade Máxima – 61,43
Cadência Média – 73
Tempo de Pedal – 42 h 00 m
Tempo de Prova – 65 h 58 m

AGRADECIMENTOS:

A todos que participaram deste Audax, seja pedalando, no apoio, com o pensamento
positivo e boas vibrações.

Como falei durante a entrega das medalhas:

"Os verdadeiros vencedores não foram os que completaram o desafio, mas aqueles
que tiveram a coragem de tentar e não se deixaram levar por pensamentos
pessimistas ou a opinião de quem não acredita ser capaz do impossível".

O impossível não existe, somos a prova viva, quando queremos muito alguma coisa
e canalizamos toda nossa energia para este objetivo, tudo podemos.

Para aqueles que ficaram pelo caminho, fica a experiência adquirida para o
futuro, pois em todas as situações podemos observar e aprender sobre o que deu
certo ou não.
Parabéns a todos os brevetados que com alma e garra de verdadeiros farrapos
enfrentaram todas as dificuldades do caminho e concluíram esta importante etapa
rumo a até mesmo conquistas ainda maiores (1200 ???)
Obrigado a cada um dos voluntários em cada PC, que de maneira especial estavam
sempre prontos para ajudar no momento de nossa chegada e durante nosso
"descanso".
Que maravilha a maneira familiar como fomos recebidos por toda equipe e
proprietários do hotel antonios, sempre dispostos a ajudar em qualquer hora, sem
falar o café sempre á disposição.
Ao Graxa (mais uma vez, obrigado pelas pilhas), que todos sabemos, abandonou a
prova por problemas na roda de sua bicicleta e ficou no apoio até o fim.
Ao Osvaldo, que lubrificou a relação de minha bike numa das passagens pelo hotel
(mais uma vez, sem palavras).
A família, pela paciência, compreensão e tranqüilidade transmitida durante os
treinos longos com várias horas de duração.
Ao Faccin, que possibilitou esta magnífica, única e inesquecível oportunidade e
realizou o sonho de todos nós.
Ao Rafael, o Cláudio e o Edson, companheiros de viagens, grandes pessoas e
sinceros amigos.
Enfim, á todos que nem mesmo sei o nome, mas que fizeram a História deste grande
Audax!!!
Abraços e muito obrigado a grande família de Audaxiosos, valeu!!!