terça-feira, 18 de março de 2014

Mais uma vitima!

A realidade é mais real, e cruel, do que se quer imaginar.
Alguém disse:
"todo o ciclista que pedala estes eventos longos e muito longos, um dia sofre um acidente grave". Obs: isto não foi dito por um brasileiro.
Alguém escreveu:
O que acontece nos brevets é que muitos ciclistas não sabem e nem percebem o risco que estão correndo.
Algumas vezes penso que muitos ciclistas não sabem o que estão comprando. Algum pode pensar que estará seguro enquanto pedala um brevet, mas a segurança é algo efêmero e o que pode te salvar é a sorte, Deus, tua experiência, teu cuidado e talvez o resgate mais rápido.
Algumas vezes penso que alguns organizadores não sabem o que estão vendendo quando oferecem o evento mais alegre, mais divertido. Talvez fosse melhor oferecer o mais seguro, ou o com menor perigoso o que provavelmente não seja o que mais interessante. 

Em 2005 o ciclista Alexandre Luz morreu ao ser atropelado durante o Brevet Randonneur Mundial 400 km de Campinas, SP.

Neste último sábado dia 15 de março de 2014 o ciclista Egon Koerner faleceu ao ser atropelado por um motorista bêbado e sem habilitação durante a realização de um Brevet Randonneur 400 km no Paraná.

http://diariocatarinense.clicrbs.com.br/sc/geral/noticia/2014/03/procurador-regional-do-trabalho-de-sc-morre-atropelado-no-parana-4447730.html




Seria bom organizar apenas a lista de brevetados, lista de ciclistas que são Super Randonneur, Randonneur 5000, Randonneur 10000, ciclistas que completaram brevets de 1200km ou mais. Agora teremos que manter uma lista de vítimas e acidentados?
Não penso que deveremos banalizar ou esquecer os acidentes;

Como ciclista e organizador, com ainda um pouco de consciência, neste momento é difícil de pensar na possibilidade das próximas noites na estrada.

Imaginar a dor dos familiares e a tristeza dos organizadores, que como nós perdemos um amigo, mas e o futuro? Vamos pedalar para esquecer!

Alguém um dia disse que eu estava levando a organização dos brevets muito a sério, mas quando o bem mais precioso que temos esta em jogo, não  é uma brincadeira.

As lembranças dos momentos em que estivemos com o Egon estão na memória. O que nos resta é trabalhar para que a sua morte não tenha sido em vão.

Já não sei se penso exatamente o mesmo como pensava em 2005, mas segue abaixo o texto que escrevi na época: 

Brevet Randonneur X Morte


1- Como todos devem saber: durante o Brevet Randonneur 400 km, realizado no final do mês de maio de 2005 em SP o Presidente em exercício do Clube Audax Brasil foi atropelado por um caminhão falecendo no local. 
 Fiquei muito triste com o que aconteceu, alem de ser mais uma vida que se foi, temos mais o que analisar e refletir.
O Alexandre estava praticando o esporte que gosto, estava pedalando a modalidade ciclística que mais pratico e era um representante da modalidade ciclística que também represento!
Se o vice presidente do Clube Audax Brasil, que era o representante nosso a nível internacional, de uma modalidade ciclística, morre atropelado durante um evento, o que dizer do cidadão comum, trabalhador, que não usa sequer refletor na bike, que não tem farol, que não sabe as regras de transito? Quando vamos conseguir fazer uma prova de 1200 km aqui? nunca? quem vai querer vir de outro país pedalar aqui nestas condições? Que segurança poderemos dar?
O que aconteceu lá poderia ter acontecido aqui em Santa Cruz, em Caxias, em Porto Alegre! Poderia ter acontecido comigo no brevet 400, poderia ter acontecido com alguém no brevet de SCS, poderia a pode acontecer com qualquer um!
Que mundo besta, animal que vivemos! Não podemos esquecer que vivemos no terceiro mundo e que por mais que possamos sonhar  temos pouco como mudar isto!
2- Quem não lembra do Morte do Airton Sena? O que existe de semelhança? Naquela época a imprensa noticiou de quase todas as maneira possíveis à morte do piloto. Ninguém que eu fiquei sabendo escreveu que: se o melhor piloto de Formula 1, competindo em uma pista exclusiva, utilizando toda a tecnologia possível, sofreu um acidente e morreu. Qual a possibilidade de isto acontecer com o cidadão comum, utilizando um veiculo qualquer, em pistas cheias de defeito e mal sinalizadas, sem utilizar equipamentos de segurança, em estradas cheias de pedestres, ciclistas, animais etc?  Se o melhor piloto do mundo morre em um acidente em alta velocidade, o que dizer do motorista comum que ultrapassa os limites aceitáveis de velocidade? A morte tem que ser utilizada como uma forma de conscientização, uma lição e não apenas para aumentar o Ibope dos meios de comunicação!
Com a morte do Alexandre devemos fazer o mesmo! Se o presidente do Clube Audax Brasil, utilizando equipamentos de segurança, transitando no acostamento de uma das melhores rodovias do país, pedalando no acostamento, morreu! O que dizer do ciclista imprudente que pedala sem equipamentos, que pedala em cima da pista de rodovias de mão dupla ou na contra mão?
3- Tem ciclista que reclamou das exigências da organização das provas no RS, que deveríamos ser mais liberais com os ciclistas, que os amigos com quem pedala são responsáveis. Tem ciclista que reclamou de ter que levar a bike para a vistoria, que reclamou de ter que levar pilhas reservas nas provas, de ter que utilizar o farol nas provas com largada no inicio do dia, que reclamou da penalidade por estar transitando no centro da pista etc.
A morte do Alexandre é a resposta para todos estes ciclistas! A resposta é uma interrogação: Você quer ser o próximo?
Reclamem da falta da segurança nas provas, mas não reclamem das exigências? Pedalem sabendo que Audax e Brevet Randonneur é um passeio muito bom, um desafio, mas que deve ser realizado com responsabilidade, que exige mais do que preparo físico, exige cultura, exige conhecimentos.
Pedalem sempre sabendo que o risco existe e em algumas situações somente o teu Anjo da Guarda poderá te ajudar!
 4- Acho que a morte do Alexandre não pode ter sido em vão e  temos a obrigação de lutar ainda mais para fazer o Randonneuring crescer, para tentar mudar ao menos um pouquinho deste mundo, nem que seja o mundo ciclístico!
O Alexandre morreu fazendo o que gostava, pedalando longa distancia em um BRM. Este fato tem que ser motivo de inspiração, de reflexão, mas não de desistência. Temos que seguir o exemplo dos alpinistas que chegam ao come da montanha em homenagem ao colega que morreu na tentativa.
Quem sabe em um futuro não realizamos um prova Audax 1200 km com o nome Alexandre Luz.
Outros ainda poderão morrer, mas é melhor morrer lutando do que viver derrotado!
Quantos ciclistas, quantas provas realizadas e quantos km percorridos na soma total de todas as participações? Quantos que venceram doenças, vícios, sedentarismo, stress para, e com, as participações nas provas de longa distancia? Quantas provas ainda iremos realizar? quantos ciclistas ainda irão participar? Quanto bem o Randonneur já fez? Quantos que saíram do sofá para pedalar? Quantos sobreviventes do Randonneur?
Não podemos pensar apenas no que morreu e esquecer os que ficaram! Por isto digo: O Randonneur não pode parar!!!

As pessoas vão, mas os BRM ficam!

Luiz Maganini Faccin


Junho 2005

Um comentário:

Carlos Polesello disse...

Na semana passada comentei com um colega ciclista que ainda bem que aconteciam poucos acidentes graves nos Audax. Infelizmente tivemos esta péssima noticia de uma morte. Este tipo de acidente acontece todo dia, e algum dia fatalmente iria chegar a atingir nós. Deixou todos nós tristes, mas a vida tem que seguir.